Se você já fez várias dietas, perdeu peso e viu a balança voltar ao ponto de partida, isso não prova falta de disciplina. O organismo reage à perda de peso com mudanças que empurram o ponteiro de volta. Veja como a obesidade é investigada e tratada no consultório da Dra. Natália Brito, em Teresina.
Por que emagrecer é tão difícil?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma doença crônica e recidivante, resultado da interação entre genética, neurobiologia, comportamento alimentar, acesso a comida saudável e ambiente. E é comum: segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, 25,7% dos adultos das capitais brasileiras tinham obesidade em 2024. Em 2006, eram 11,8%.
O corpo defende o peso que tinha
Quando você emagrece, o organismo passa a economizar energia. A diretriz de tratamento farmacológico da ABESO chama isso de adaptação metabólica: o gasto de energia em repouso cai e o apetite aumenta. Por isso manter o peso perdido costuma ser mais difícil do que perdê-lo.
Hormônios e sono entram na conta
O apetite também depende de hormônios. A leptina, produzida pelas células de gordura, faz parte dos sinais de saciedade que chegam ao cérebro. As Diretrizes Brasileiras de Obesidade, da ABESO, relatam que dormir pouco reduz a leptina, aumenta a grelina e piora a tolerância à glicose. O resultado é mais fome e mais apetite.
Que causas a endocrinologista investiga?
Na maioria das pessoas, o excesso de peso não tem uma causa só. Mesmo assim, algumas condições precisam ser descartadas, porque mudam a conduta. O caderno do Ministério da Saúde sobre obesidade destaca estas:
- Hipotireoidismo. Provoca cansaço, intolerância ao frio e intestino preso. O ganho de peso costuma ser modesto e não explica, sozinho, uma obesidade grave. Veja a página sobre tireoide.
- Síndrome dos ovários policísticos (SOP). Aparece com ciclos irregulares, excesso de pelos e resistência à insulina. Está associada ao excesso de peso, embora a relação de causa e efeito não esteja estabelecida.
- Excesso de cortisol (síndrome de Cushing). É rara. Gordura concentrada no tronco, estrias arroxeadas e pele fina chamam a atenção. A causa mais comum é o uso prolongado de corticoides.
- Medicamentos que engordam. Entre eles estão corticoides, insulina, alguns antidepressivos (como amitriptilina, mirtazapina e paroxetina), antipsicóticos (como olanzapina e risperidona), lítio, ácido valproico e medroxiprogesterona.
Se você usa algum desses remédios, não suspenda por conta própria. Quando há alternativa, a troca é combinada com quem prescreveu, como orienta a ABESO.
A resistência à insulina também entra na investigação, porque pode evoluir para pré-diabetes e diabetes.
Como é feita a avaliação?
A primeira consulta dura cerca de 1 hora. A avaliação começa pela história do seu peso, incluindo o maior peso que você já teve, as tentativas anteriores, o sono, os remédios em uso e, nas mulheres, o ciclo menstrual.
IMC
O índice de massa corporal (peso dividido pela altura ao quadrado) é classificado assim pela OMS e pela ABESO:
| IMC (kg/m²) | Classificação |
|---|---|
| 18,5 a 24,9 | Peso normal |
| 25 a 29,9 | Sobrepeso |
| 30 a 34,9 | Obesidade grau I |
| 35 a 39,9 | Obesidade grau II |
| 40 ou mais | Obesidade grau III |
O IMC não separa gordura de músculo. Por isso a ABESO recomenda usá-lo junto com outras medidas.
Circunferência abdominal
A medida da cintura estima a gordura visceral, que fica entre os órgãos e se relaciona ao risco cardiovascular. Segundo a ABESO e o Ministério da Saúde, o risco aumenta a partir de 94 cm nos homens e 80 cm nas mulheres. Pelo critério da Federação Internacional de Diabetes, citado pela ABESO, cintura aumentada mais duas alterações entre triglicérides altos, HDL baixo, pressão alta e glicemia elevada definem a síndrome metabólica.
Bioimpedância
A bioimpedância estima quanto do seu peso é gordura, músculo e água. Assim dá para ver se a perda vem da gordura ou se a massa muscular está caindo junto. Na consulta presencial, ela já está inclusa.
Exames de laboratório
O Ministério da Saúde indica glicemia de jejum, colesterol e triglicérides, ácido úrico e hemograma no início do acompanhamento. Conforme a suspeita, entram exames de tireoide e outras dosagens hormonais.
Como é o tratamento da obesidade?
O plano é individual. O medicamento, quando indicado, soma-se aos hábitos abaixo e não os substitui.
Alimentação
Nenhuma dieta serve para todo mundo. A diretriz da ABESO de 2026 cita o Guia Alimentar para a População Brasileira, a dieta mediterrânea e o padrão DASH como bons norteadores, adaptados à sua rotina, à sua cultura e ao seu orçamento.
Atividade física
A mesma diretriz recomenda de 150 a 300 minutos por semana de exercício aeróbico moderado, ou de 75 a 150 minutos de exercício vigoroso, com duas a três sessões semanais de treino de força. Se isso parece muito agora, comece com menos: aumentos modestos de atividade já se associam a menor mortalidade.
Sono
Dormir mal aumenta a fome. Ronco alto e pausas na respiração durante a noite podem indicar apneia do sono, uma complicação ligada à obesidade que também entra na avaliação.
Medicamentos
Pela diretriz da ABESO de 2026, o tratamento com remédios é recomendado para quem tem IMC de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com complicações do excesso de peso, sempre junto com as mudanças de estilo de vida. Os aprovados no Brasil para obesidade são liraglutida, semaglutida, tirzepatida, naltrexona com bupropiona, sibutramina e orlistate.
A semaglutida imita o GLP-1, um hormônio que aumenta a saciedade e diminui a fome. A tirzepatida age em dois receptores, o do GLP-1 e o do GIP. A ABESO classifica as duas como de alta potência: na metanálise usada pela diretriz, a perda média de peso em um ano, já descontado o efeito do placebo, foi de 12% com semaglutida e de 14,8% com tirzepatida. São médias de estudos, e a resposta de cada pessoa varia.
Os efeitos colaterais mais comuns são náusea, diarreia, vômitos e prisão de ventre. Segundo o posicionamento da ABESO e da SBEM, costumam ser leves a moderados e passageiros. Qual remédio usar, em que dose e por quanto tempo é definido na consulta, considerando outras doenças e contraindicações.
Quanto peso é preciso perder para ter benefício?
Menos do que muita gente imagina. As Diretrizes Brasileiras de Obesidade consideram uma perda de 5% mantida como critério mínimo de sucesso, porque ela já beneficia as doenças associadas. Perder de 5% a 10% do peso ajuda a controlar a pressão arterial, o colesterol, a glicemia e a hemoglobina glicada, e pode reduzir a necessidade de outros remédios. A diretriz considera factível uma meta inicial de 5% a 10% em seis meses.
Metas maiores podem fazer sentido: a diretriz da ABESO de 2026 sugere considerar 10% ou mais para a maioria das pessoas com obesidade, pesando benefícios e riscos. O alvo, porém, não é só a balança. Contam também o controle das doenças associadas e a qualidade de vida.
Como manter o peso depois de emagrecer?
O cuidado não termina quando a meta é atingida. A adaptação metabólica continua agindo, e o reganho é comum quando o tratamento para. A diretriz da ABESO de 2026 relata que, nos 12 meses seguintes à suspensão da semaglutida no estudo STEP 1, os participantes recuperaram dois terços do peso perdido.
Por isso a diretriz recomenda manter o medicamento a longo prazo, quando ele foi necessário, com reavaliações periódicas de eficácia e segurança. A atividade física aparece como uma das estratégias mais eficazes para sustentar o resultado. Na prática, o acompanhamento inclui:
- retornos para ajustar o plano e rever exames;
- bioimpedância periódica, para conferir se a massa muscular está preservada;
- cuidado com diabetes, pressão alta e colesterol, quando presentes.
Como é o atendimento com a Dra. Natália Brito?
A Dra. Natália Brito é endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), com título de especialista pela SBEM, e professora de Endocrinologia na UniFacid. Ela atende mulheres e homens adultos no Instituto Essência, no Jóquei, em Teresina. A consulta é particular, dura cerca de 1 hora e inclui o retorno.
Quem mora em outras cidades pode fazer o acompanhamento por teleconsulta.