O jejum intermitente ganhou espaço na mídia e nos consultórios como estratégia para perder peso. A proposta parece simples: em vez de mudar o que se come, muda-se o horário em que se come.
O posicionamento nutricional da ABESO de 2022 chama atenção para um ponto: o jejum intermitente, por si só, não prevê mudança de hábito alimentar nem adoção de um padrão saudável. Ele restringe apenas quando as calorias entram. A pergunta que importa é se isso traz alguma vantagem sobre a dieta tradicional.
Quais são os tipos de jejum intermitente?
Os estudos costumam agrupar o jejum intermitente em três formatos, segundo a metanálise publicada no BMJ em 2025:
- Alimentação com restrição de horário: come-se dentro de uma janela diária e jejua-se no resto do tempo. O exemplo mais conhecido é o 16:8, com 16 horas de jejum e 8 horas para comer.
- Jejum em dias alternados: um dia de jejum de 24 horas, ou de ingestão muito reduzida, alternado com um dia de alimentação livre.
- Jejum de dia inteiro: um padrão semanal com alguns dias de jejum e os demais de alimentação livre, como o 5:2, com cinco dias comuns e dois de jejum.
A ABESO descreve que, nos dias de restrição, alguns protocolos permitem consumir cerca de 25% das necessidades de energia em uma única refeição, e que as janelas alimentares costumam ter de 4 a 8 horas.
O jejum intermitente emagrece mais do que a dieta comum?
Na maioria das comparações, não. O que os estudos mostram é que o jejum funciona mais ou menos tão bem quanto a restrição calórica diária, a dieta em que se come menos todos os dias, sem janelas de jejum.
A metanálise do BMJ de 2025 reuniu 99 ensaios clínicos randomizados, com 6.582 adultos. Todas as estratégias de jejum e a restrição calórica contínua levaram a perda de peso quando comparadas à alimentação livre. Entre elas, as diferenças foram pequenas:
| Comparação | Diferença média de peso |
|---|---|
| Dias alternados versus restrição calórica contínua | 1,29 kg a mais com dias alternados |
| Dias alternados versus restrição de horário | 1,69 kg a mais com dias alternados |
| Dias alternados versus jejum de dia inteiro | 1,05 kg a mais com dias alternados |
Os autores consideraram 2 kg como a menor diferença de peso com relevância clínica. Nenhuma dessas comparações chegou a esse valor. Nos estudos com 24 semanas ou mais, só apareceu vantagem das dietas em relação à alimentação livre, e não de uma dieta sobre a outra. Apenas cinco estudos duraram 52 semanas ou mais.
Dois ensaios clínicos ajudam a entender esses números:
- Dias alternados, 12 meses: em adultos com obesidade, a perda de peso foi de 6,0% com jejum em dias alternados e de 5,3% com restrição calórica diária, em relação ao grupo controle, sem diferença importante entre os dois. A desistência foi maior no grupo do jejum, de 38% contra 29%, e o LDL, o colesterol “ruim”, subiu mais nesse grupo ao fim de um ano.
- Estudo TREAT, 12 semanas: o jejum de 16 horas sem outras orientações levou a uma perda de 0,94 kg, sem diferença em relação ao grupo que fazia três refeições por dia.
Para a ABESO, o jejum intermitente leva a perda de peso semelhante à da restrição calórica diária, porque também cria um déficit de calorias, e não pelo período de jejum em si. A mesma entidade aponta que estudos longos mostram adesão menor do que a da dieta comum.
Para quem o jejum intermitente não é indicado?
A revisão de Grajower e Horne, publicada em 2019 na revista Nutrients, lista situações em que o jejum intermitente deve ser evitado ou só feito com orientação:
- Diabetes em uso de insulina ou sulfonilureia (classe de comprimidos que estimula o pâncreas a liberar insulina): o risco mais imediato é a hipoglicemia (glicose baixa demais). As doses desses remédios costumam precisar de ajuste pelo médico nos dias de jejum, e as medidas de glicose devem ser mais frequentes. Os autores recomendam que quem usa insulina receba orientação individual sobre quando e o que comer se a glicose cair. Não altere a dose por conta própria.
- Gestantes e lactantes, crianças pequenas, pessoas de idade avançada e idosos frágeis.
- Transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, porque o jejum deliberado tende a agravar o quadro.
- Pessoas com imunodeficiência ou em uso de remédios que reduzem a imunidade, como após transplante.
Segundo a mesma revisão, outros remédios para diabetes raramente causam hipoglicemia quando usados sem insulina ou sulfonilureia, mas o risco não é zero.
Quais cuidados tomar se você quiser tentar?
- Converse antes com seu médico, principalmente se você tem diabetes, usa remédios de uso contínuo ou tem histórico de transtorno alimentar.
- Cuide da qualidade do que come. Na janela de alimentação, a escolha dos alimentos continua valendo. A ABESO observa que, em um estudo, faltaram mais fibras, zinco, magnésio e selênio no grupo do jejum do que no da restrição contínua.
- Beba água, inclusive para repor o líquido que viria dos alimentos, como recomenda a revisão de Grajower e Horne.
- Escolha algo que caiba na sua rotina. Para a ABESO, planos que atrapalham o convívio social ou a rotina tendem a funcionar por pouco tempo e facilitam o reganho de peso.
A estratégia alimentar mais adequada é individual e deve ser definida com quem acompanha você.
Quando procurar um endocrinologista?
Converse com um endocrinologista antes de começar o jejum se você tem diabetes, pré-diabetes ou usa remédios de uso contínuo, e também se já tentou vários tipos de dieta sem conseguir manter o peso. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de emagrecimento e obesidade e a consulta.