Muita gente descobre que tem gordura no fígado por acaso, em um ultrassom de abdome pedido por outro motivo. O achado é comum. Uma revisão publicada em 2023 na revista Hepatology, com 92 estudos, estimou, pelo critério antigo de diagnóstico, que cerca de 30% da população mundial tem esse problema. A América Latina apareceu com a maior taxa, em torno de 44%.
Comum não quer dizer inofensivo. Em parte das pessoas, a gordura inflama o fígado e pode levar à fibrose e à cirrose. Por isso vale entender o que o diagnóstico significa e o que muda na rotina.
O que é gordura no fígado e por que o nome mudou?
O nome técnico é esteatose hepática: acúmulo de gordura em mais de 5% das células do fígado, segundo a diretriz da ABESO de 2026. Por muitos anos, a forma mais comum foi chamada de doença hepática gordurosa não alcoólica.
Em 2023, um consenso internacional com 236 especialistas de 56 países trocou esse nome. Os termos “não alcoólica” e “gordurosa” foram considerados estigmatizantes por 61% e 66% dos participantes, respectivamente. A condição passou a se chamar doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla em inglês MASLD. A forma com inflamação virou esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH).
Pelo novo critério, é MASLD quando há gordura no fígado, nenhuma outra causa aparente e pelo menos um de cinco fatores de risco cardiometabólico:
- excesso de peso ou cintura aumentada;
- glicose alterada, pré-diabetes ou diabetes tipo 2;
- pressão alta;
- triglicerídeos altos;
- HDL, o colesterol “bom”, baixo.
Quem tem esses fatores e também consome quantidades maiores de álcool entra em outra categoria, chamada MetALD. Uma análise citada no consenso mostrou que 98% das pessoas com o diagnóstico antigo em um grande registro europeu se enquadram no novo critério, então os estudos anteriores continuam úteis.
Quais são as causas e quem tem mais risco?
A MASLD é a expressão no fígado de um desequilíbrio do metabolismo do corpo todo. A diretriz da ABESO descreve forte associação com obesidade central (gordura na barriga), resistência à insulina, diabetes tipo 2 e alterações de colesterol e triglicerídeos. Resistência à insulina é quando o corpo responde mal a esse hormônio e precisa produzir mais dele para controlar a glicose.
A diretriz europeia de 2024, das sociedades de fígado, diabetes e obesidade da Europa (EASL, EASD e EASO), aponta o diabetes tipo 2 e a obesidade, principalmente a abdominal, como as condições com maior impacto na evolução da doença. Também têm mais risco de fibrose progressiva:
- homens com mais de 50 anos;
- mulheres após a menopausa;
- pessoas com vários fatores de risco cardiometabólico ao mesmo tempo.
O álcool piora o quadro, e os efeitos dele e do metabolismo podem se somar. Outras causas de gordura no fígado, como alguns medicamentos e doenças genéticas raras, precisam ser consideradas antes de fechar o diagnóstico.
Como se descobre gordura no fígado?
Na prática, o achado costuma vir de um exame de imagem, geralmente o ultrassom. A diretriz europeia recomenda que, diante desse achado, o médico investigue a causa e avalie se já existe fibrose, porque é ela que define o risco.
A avaliação de fibrose é feita em etapas:
- Escore FIB-4: cálculo feito com a idade e exames de sangue simples (enzimas do fígado e plaquetas). Serve como primeiro filtro.
- Elastografia: exame de imagem que mede a rigidez do fígado. Quanto mais rígido, maior a chance de fibrose. É indicada quando o FIB-4 não descarta o problema ou em grupos de alto risco.
- Biópsia: na maioria dos casos não é necessária, mas continua sendo o exame que confirma a esteato-hepatite e ajuda a descartar outras doenças.
A mesma diretriz não recomenda rastrear a população geral. A busca ativa de fibrose é indicada para quem tem diabetes tipo 2, obesidade abdominal com pelo menos mais um fator de risco ou exames do fígado alterados.
Quando a gordura no fígado preocupa?
Segundo a diretriz europeia, na população geral a gordura no fígado sozinha não está associada de forma independente a complicações hepáticas. O que pesa é o estágio da fibrose e a elevação persistente das enzimas do fígado. A diretriz da ABESO também aponta a fibrose como o principal fator de prognóstico.
A MASLD é um espectro que vai da gordura isolada à inflamação, à fibrose, à cirrose e ao câncer de fígado (carcinoma hepatocelular). A diretriz europeia associa a doença a mais eventos cardiovasculares, doença renal crônica e alguns tipos de câncer. Pele ou olhos amarelados, barriga inchada por acúmulo de líquido, vômito com sangue ou confusão mental podem indicar doença do fígado avançada e pedem atendimento de urgência.
O coração merece a mesma atenção que o fígado. Na revisão da Hepatology, a taxa de morte por causas cardíacas foi de 4,2 por mil pessoas por ano, contra 0,92 por doença do fígado. Controlar pressão, glicose e colesterol faz parte do cuidado.
O que fazer para tratar gordura no fígado?
A base do tratamento é a perda de peso sustentada. A diretriz europeia define metas conforme o objetivo:
| Perda de peso sustentada | Benefício esperado no fígado |
|---|---|
| 5% ou mais | Redução da gordura |
| 7% a 10% | Melhora da inflamação |
| 10% ou mais | Melhora da fibrose |
A diretriz da ABESO segue na mesma linha e afirma que perdas acima de 7% têm impacto importante nos marcadores de gordura no fígado. Para uma pessoa de 90 kg, 7% equivalem a cerca de 6 kg.
As recomendações de estilo de vida da diretriz europeia incluem:
- alimentação no padrão da dieta mediterrânea, com menos ultraprocessados ricos em açúcar e gordura saturada;
- evitar bebidas adoçadas com açúcar;
- mais de 150 minutos por semana de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade intensa;
- desencorajar o consumo de álcool.
Quando há obesidade, a diretriz da ABESO recomenda tratamento com medicamento para perda de peso em quem tem MASLD. Para quem já tem esteato-hepatite com fibrose, ela recomenda a semaglutida. No estudo ESSENCE, citado pela diretriz, 62,9% dos pacientes tratados com semaglutida tiveram resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose em 72 semanas, contra 34,3% no grupo placebo. A diretriz europeia inclui ainda a cirurgia bariátrica como opção para pessoas com MASLD e obesidade. A escolha entre essas opções é individual e feita em consulta.
Quando procurar um endocrinologista?
Converse com um endocrinologista se um exame mostrou gordura no fígado e você tem excesso de peso, pré-diabetes, diabetes, pressão alta ou triglicerídeos altos, porque o controle dessas condições é o centro do tratamento. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de emagrecimento e obesidade e a consulta.