Um caroço atrás do mamilo, uma mama maior que a outra ou o peito mais volumoso sem explicação. Muitos homens adiam a consulta por vergonha ou por medo de câncer. Na maioria das vezes, trata-se de ginecomastia, uma alteração benigna e bem mais comum do que parece.
Segundo revisão publicada em 2025 no Deutsches Ärzteblatt, a ginecomastia é a alteração benigna mais frequente da mama masculina, com prevalência entre 32% e 65% nos estudos. Ela não é uma doença em si, e sim o sinal de um desequilíbrio entre estrogênio e androgênios (hormônios masculinos). Por isso, o mais importante é entender a causa.
O que é ginecomastia e como diferenciar da gordura?
Ginecomastia é o crescimento do tecido glandular da mama no homem. Ela é diferente da lipomastia, também chamada de pseudoginecomastia, que é o acúmulo de gordura na região sem aumento da glândula. As duas podem aparecer juntas, principalmente em homens com obesidade.
No exame, alguns detalhes ajudam a separar as situações, segundo a American Family Physician (AAFP):
- ginecomastia: tecido glandular firme, ao redor da aréola, geralmente dos dois lados e às vezes dolorido;
- pseudoginecomastia: aumento de gordura, sem esse disco glandular;
- sinal de alerta: massa dura e imóvel deve ser tratada como suspeita de câncer até prova em contrário.
Quando o exame deixa dúvida, o ultrassom de mama ajuda a distinguir gordura de glândula.
Por que a ginecomastia acontece?
Fases em que ela é esperada
A ginecomastia pode ser fisiológica, ou seja, fazer parte do desenvolvimento normal, em três momentos:
- recém-nascidos: até 90% dos meninos têm tecido mamário palpável pelos hormônios da mãe, e isso regride em poucas semanas (AAFP);
- puberdade: a prevalência varia de 22% a 69% entre adolescentes, com regressão espontânea esperada entre 6 e 24 meses (Deutsches Ärzteblatt);
- envelhecimento: em homens mais velhos, costuma refletir a queda relativa da testosterona (Deutsches Ärzteblatt).
Causas que precisam de investigação
A AAFP resume a frequência aproximada das causas em uma revisão de 2012:
| Causa | Frequência aproximada |
|---|---|
| Ginecomastia fisiológica (puberdade e outras fases) | 25% |
| Sem causa identificada | 25% |
| Medicamentos e outras substâncias | 10% a 25% |
| Cirrose | 8% |
| Hipogonadismo primário (falha dos testículos) | 8% |
| Tumores | 3% |
| Hipogonadismo secundário (falha da hipófise) | 2% |
| Hipertireoidismo | 2% |
| Insuficiência renal crônica | 1% |
Algumas causas merecem destaque:
- Medicamentos: a espironolactona tem alta tendência a causar ginecomastia, segundo a AAFP. Antipsicóticos, antirretrovirais, remédios para câncer de próstata, inibidores de ácido do estômago e alguns remédios para o coração também aparecem nas listas. Álcool, maconha, anfetaminas e heroína podem contribuir.
- Anabolizantes: a SBEM cita o aumento das mamas, a atrofia dos testículos e a infertilidade entre os efeitos do excesso de anabolizantes em homens. Segundo a AAFP, a ginecomastia causada por anabolizantes muitas vezes não regride.
- Testosterona baixa: a SBEM inclui a ginecomastia entre os sintomas que podem sugerir deficiência de testosterona (hipogonadismo).
- Tireoide: a ginecomastia aparece em 10% a 40% dos homens com hipertireoidismo, e costuma regredir em um a dois meses depois do controle da tireoide (AAFP).
- Fígado e rins: a cirrose dificulta a eliminação do estrogênio, e a insuficiência renal crônica altera o equilíbrio hormonal (AAFP).
- Tumores: raros, podem estar nos testículos, nas adrenais ou em outros órgãos que produzem o hormônio hCG. A combinação de ginecomastia, queda da libido e nódulo no testículo é típica de um tumor de células de Leydig (Deutsches Ärzteblatt).
Mesmo com investigação completa, a revisão de 2025 aponta que em 45% a 50% dos homens adultos nenhuma causa é encontrada.
Como é feita a investigação?
A avaliação segue o que a história e o exame sugerem. A revisão do Deutsches Ärzteblatt propõe uma base:
- conversa detalhada sobre início e evolução, remédios, suplementos, álcool, drogas, anabolizantes e outras doenças;
- exame das mamas e dos testículos;
- ultrassom de mama, para diferenciar gordura de glândula, e de testículos, para afastar tumor;
- exames de sangue: testosterona total, estradiol, LH, hCG e prolactina.
Conforme o caso, entram FSH, TSH e T4 livre, alfafetoproteína, DHEA, testosterona livre, função do fígado e dos rins e cariótipo (análise dos cromossomos). Se houver suspeita de câncer, a investigação inclui mamografia e biópsia. A AAFP lembra que o diagnóstico de ginecomastia fisiológica só deve ser feito depois de afastadas as outras causas.
Como é o tratamento?
O tratamento depende da causa e do quanto a ginecomastia incomoda. Pode ir de acompanhamento a remédio ou cirurgia, segundo o Deutsches Ärzteblatt:
- observar: na puberdade, a conduta mais comum é acompanhar por até 24 meses;
- tratar a causa: controlar o hipertireoidismo, tratar o hipogonadismo ou rever um medicamento. Segundo a AAFP, a suspensão da espironolactona costuma levar à regressão em até três meses. Qualquer troca de remédio deve ser decidida com o médico que o prescreveu;
- mudar hábitos: perder peso e evitar substâncias que contribuem para o quadro;
- remédios: medicamentos com ação antiestrogênica, como o tamoxifeno (uso fora da bula), têm mais efeito na ginecomastia recente, idealmente nos primeiros 6 meses, antes de o tecido ficar fibroso;
- cirurgia: indicada quando a ginecomastia persiste depois de tratada a causa e de um tempo adequado de espera. Na adolescência, a decisão costuma ficar para depois do fim da puberdade.
A escolha entre essas opções é individual e feita em consulta.
Quais são os sinais de alerta?
O câncer de mama em homens é raro. Segundo a AAFP, entre homens encaminhados para exame de imagem ou biópsia por aumento da mama, de 1,4% a 2,9% tinham câncer. Mesmo assim, alguns sinais pedem avaliação sem demora:
- nódulo duro e fixo, principalmente de um lado só e sem dor;
- crescimento rápido da mama;
- retração, ferida ou secreção no mamilo, sobretudo com sangue;
- alterações na pele da mama;
- ínguas na axila;
- nódulo no testículo;
- perda de peso sem explicação;
- ginecomastia da puberdade que dura mais de 2 anos ou continua depois dos 17 anos.
Quando procurar um endocrinologista?
A consulta com endocrinologista é indicada se o aumento da mama surgiu na vida adulta, se persiste depois da puberdade, se veio junto com queda da libido, cansaço ou alterações nos testículos, ou se você usa ou usou anabolizantes ou remédios associados à ginecomastia. Diante de qualquer sinal de alerta, a avaliação deve ser rápida. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina (PI), e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, conheça o perfil da médica e veja como funciona a consulta.