O cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas adrenais, que ficam sobre os rins. Ele ajuda a controlar a glicose, a pressão e a resposta do corpo a situações de esforço. O nível muda ao longo do dia: sobe de manhã e cai à noite. Na síndrome de Cushing, segundo a revisão de Castro e Moreira publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, a maioria das pessoas perde esse ritmo.
Por isso um “cortisol alto” no exame de rotina gera tanta dúvida. Muitas vezes o valor reflete o momento da coleta, e não uma doença. A seguir, veja o que diferencia as duas situações e quais exames realmente investigam o problema.
Estresse e síndrome de Cushing são a mesma coisa?
Não. A síndrome de Cushing é o excesso prolongado de cortisol, com efeitos no corpo inteiro. Já o cortisol pode subir por outros motivos, sem que exista a síndrome. A diretriz da Endocrine Society, de 2008, lista situações que elevam o cortisol sem ser Cushing:
- gravidez;
- depressão e outros transtornos psiquiátricos;
- dependência de álcool;
- obesidade grave;
- diabetes mal controlado;
- estresse físico, como doença aguda ou cirurgia;
- desnutrição;
- exercício intenso;
- resistência aos glicocorticoides, uma condição rara.
Nessas situações, o corpo continua respondendo aos mecanismos de controle. A revisão de Castro e Moreira explica que os testes dinâmicos, como a supressão com dexametasona, ajudam a separar esses quadros da síndrome verdadeira.
Qual é a causa mais comum da síndrome de Cushing?
A causa mais comum é o uso de corticoides receitados como remédio, segundo a diretriz da Endocrine Society. Esse tipo é chamado de Cushing iatrogênico ou exógeno, porque vem de fora do corpo. A SBEM cita o uso excessivo por via oral, injetável ou tópica, e a diretriz conjunta europeia e americana de 2024 lembra que as vias inalada, nasal e intra-articular também podem afetar o eixo hormonal.
Quando o próprio corpo produz cortisol demais, fala-se em Cushing endógeno. Ele é incomum: a diretriz da Endocrine Society cita estudos europeus com dois a três casos por milhão de habitantes por ano. As causas, segundo a SBEM, são:
- tumor na hipófise que produz ACTH, o hormônio que estimula as adrenais (é a doença de Cushing, a causa endógena mais comum, segundo o consenso da Pituitary Society de 2021);
- tumor na adrenal que produz cortisol por conta própria;
- produção de ACTH fora da hipófise, por exemplo por tumores de pulmão, o que é mais raro.
Quais sinais sugerem síndrome de Cushing?
Muitos efeitos do cortisol em excesso são comuns na população geral, como obesidade, depressão, diabetes, pressão alta e menstruação irregular. A diretriz da Endocrine Society destaca os sinais que mais ajudam a diferenciar a síndrome:
- roxos que aparecem com facilidade;
- rosto avermelhado (pletora facial);
- fraqueza nos músculos das coxas e dos ombros (miopatia proximal);
- estrias avermelhadas ou arroxeadas com mais de 1 cm de largura.
A SBEM acrescenta o acúmulo de gordura no rosto e no abdome, com braços e pernas finos pela perda de músculo.
Quem deve ser investigado?
A diretriz da Endocrine Society recomenda investigar quem tem:
- sinais incomuns para a idade, como osteoporose ou pressão alta em pessoas jovens;
- vários sinais ao mesmo tempo, que pioram com o tempo, principalmente os da lista acima;
- crianças que ganham peso enquanto a altura fica para trás;
- nódulo na adrenal descoberto por acaso em exame de imagem.
A mesma diretriz recomenda não testar de forma ampla pessoas fora desses grupos.
Quais exames investigam o cortisol alto?
Antes de qualquer exame, a diretriz recomenda revisar todos os remédios em uso, para descartar corticoide. Depois, a investigação começa com um dos testes abaixo, escolhidos pela diretriz da Endocrine Society e mantidos pelo consenso da Pituitary Society de 2021:
| Exame | Como é feito | O que sugere Cushing |
|---|---|---|
| Cortisol salivar noturno | Saliva colhida entre 23h e 24h, em duas noites diferentes | Valor acima da referência do laboratório |
| Cortisol livre na urina de 24 horas | Toda a urina de um dia, em pelo menos duas coletas | Valor acima da referência do laboratório |
| Supressão com 1 mg de dexametasona | Comprimido à noite e cortisol no sangue na manhã seguinte | Cortisol acima de 1,8 µg/dL |
Para o cortisol salivar, o consenso de 2021 recomenda pelo menos duas ou três amostras. Um resultado alterado não fecha o diagnóstico sozinho. A confirmação e a busca da causa seguem com outros exames, avaliados pelo especialista.
Por que o cortisol de manhã, sozinho, não diagnostica?
A diretriz da Endocrine Society recomenda não usar o cortisol no sangue colhido de forma aleatória, nem o ACTH isolado, para rastrear a síndrome. A revisão de Castro e Moreira chega à mesma conclusão: medidas isoladas de cortisol e ACTH não têm valor diagnóstico para o excesso de cortisol.
Há três motivos práticos:
- O pico normal é de manhã. Um valor alto nesse horário pode ser apenas o ritmo natural. O que chama atenção na síndrome é o cortisol que não cai à noite.
- Outras situações elevam o cortisol. Depressão, álcool, obesidade grave e estresse físico estão entre as condições que a diretriz associa a cortisol alto sem síndrome de Cushing.
- A pílula muda o resultado. Os estrogênios aumentam a proteína que carrega o cortisol no sangue. A diretriz da Endocrine Society relata falso-positivo no teste com dexametasona em 50% das mulheres que usam anticoncepcional oral.
Como é o tratamento?
Depende da causa. No Cushing por remédio, o corticoide não deve ser interrompido de repente. A diretriz de 2024 da European Society of Endocrinology e da Endocrine Society orienta redução gradual e explica que o uso prolongado pode suprimir a produção natural de cortisol, com risco de insuficiência adrenal. A mesma diretriz alerta para a crise adrenal: quem usa ou usou corticoide e tem vômitos, diarreia ou queda de pressão, com tontura ou desmaio, precisa de atendimento de urgência. Na doença de Cushing, o consenso da Pituitary Society recomenda a cirurgia pelo nariz (transesfenoidal) como primeira opção. Qualquer conduta é individual e decidida em consulta.
Quando procurar um endocrinologista?
Consulte um endocrinologista se você reúne vários dos sinais descritos, tem pressão alta ou osteoporose em idade jovem, recebeu o achado de um nódulo na adrenal ou usa corticoide há meses e quer entender os riscos. A Dra. Natália Brito é endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674) e atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se quiser avaliar seu caso, veja como funciona a consulta e conheça a Dra. Natália Brito.