Síndrome metabólica: critérios, riscos e tratamento

Síndrome metabólica é o nome dado a um conjunto de alterações que aparecem juntas e elevam o risco de doença cardiovascular e de diabetes tipo 2. Pelo critério NCEP-ATP III, o diagnóstico exige pelo menos três de cinco itens: cintura aumentada, triglicerídeos altos, HDL baixo, pressão elevada e glicemia de jejum alterada. O tratamento se baseia em mudança de estilo de vida e no controle de cada componente.

Por equipe editorial do consultório · Publicado em

Síndrome metabólica não é uma doença única. É o nome de um conjunto de fatores de risco cardiovascular que costumam aparecer juntos e que, segundo a I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, estão geralmente ligados ao acúmulo de gordura no abdome e à resistência à insulina. Resistência à insulina é quando o corpo responde menos a esse hormônio e passa a precisar de mais insulina para manter a glicose sob controle.

Cada alteração, isolada, pode parecer pequena: alguns centímetros a mais na cintura, uma pressão um pouco acima do ideal, triglicerídeos no limite. Somadas, elas mudam o risco de forma importante.

A síndrome metabólica é comum?

Muito. Uma revisão publicada em 2018 estima que ela atinja cerca de um quarto da população mundial e seja aproximadamente três vezes mais frequente que o diabetes.

No Brasil, um estudo com dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde, publicado em 2020, encontrou prevalência de 38,4% entre adultos. Os componentes mais comuns foram a cintura aumentada (65,5%) e o HDL baixo (49,4%), inclusive entre os mais jovens. A síndrome foi mais frequente em mulheres (41,8%), em pessoas com baixa escolaridade (47,5%) e em idosos (66,1%).

Quais são os critérios diagnósticos da síndrome metabólica?

Diferentes entidades propuseram definições ao longo dos anos. As duas mais usadas na prática são:

Critério NCEP-ATP III IDF
Cintura Acima de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres Obrigatória: 90 cm ou mais em homens e 80 cm ou mais em mulheres para sul e centro-americanos
Triglicerídeos A partir de 150 mg/dL ou tratamento A partir de 150 mg/dL ou tratamento
HDL Abaixo de 40 mg/dL em homens e 50 mg/dL em mulheres Abaixo de 40 mg/dL em homens e 50 mg/dL em mulheres
Pressão arterial A partir de 130/85 mmHg ou tratamento Sistólica a partir de 130 ou diastólica a partir de 85 mmHg, ou tratamento
Glicemia de jejum A partir de 100 mg/dL ou tratamento A partir de 100 mg/dL ou diabetes já diagnosticado

Os valores do NCEP-ATP III seguem a versão atualizada descrita na revisão de 2018. Os da IDF estão nas Diretrizes Brasileiras de Obesidade da ABESO, que registram, para populações de origem europeia, cintura a partir de 94 cm em homens e 80 cm em mulheres, e orientam usar as referências sul-asiáticas para as Américas do Sul e Central.

Em 2009, entidades internacionais publicaram uma declaração conjunta para harmonizar as definições. O estudo brasileiro citado acima usou esse critério harmonizado, com cintura a partir de 80 cm em mulheres e 90 cm em homens. Como a pesquisa não dosou glicose de jejum nem triglicerídeos, os autores usaram no lugar a hemoglobina glicada e o colesterol total. Por isso, os números dele não são diretamente comparáveis aos do NCEP-ATP III.

Quais são os riscos da síndrome metabólica?

O principal é o cardiovascular. A diretriz brasileira descreve que a síndrome metabólica, associada à doença cardiovascular, aumenta a mortalidade geral em cerca de 1,5 vez e a mortalidade cardiovascular em cerca de 2,5 vezes.

O risco de diabetes tipo 2 também sobe. Uma meta-análise publicada na revista Diabetes Care em 2008 encontrou risco cerca de 3,5 vezes maior de desenvolver diabetes em quem tinha síndrome metabólica pelo critério NCEP. O mesmo trabalho mostrou que o risco cresce conforme aumenta o número de componentes: quem tinha quatro ou mais alterações apresentou risco muitas vezes maior do que quem não tinha nenhuma.

A diretriz brasileira lista ainda condições que aparecem com frequência junto com a síndrome, embora não façam parte dos critérios:

Como é o tratamento da síndrome metabólica?

O tratamento tem duas frentes que andam juntas: mudança de estilo de vida para todos e controle específico de cada componente alterado.

Mudança de estilo de vida

A diretriz brasileira recomenda:

O impacto dessas mudanças foi medido no Diabetes Prevention Program, estudo com 3.234 adultos com glicose acima do normal. O grupo de estilo de vida tinha como metas perder pelo menos 7% do peso e fazer 150 minutos de atividade física por semana. Em cerca de 2,8 anos de acompanhamento, a incidência de diabetes caiu 58% em relação ao placebo. No grupo que usou metformina, a queda foi de 31%.

Controle de cada componente

Quando as mudanças de estilo de vida não bastam, o médico pode indicar medicamentos para pressão, colesterol e triglicerídeos, glicose ou peso. A diretriz brasileira considera que, na síndrome metabólica, levar a pressão para menos de 130/85 mmHg pode ser útil em pacientes com risco cardiovascular elevado. As metas e as escolhas de tratamento dependem do risco de cada pessoa e são definidas em consulta.

Quando procurar um endocrinologista?

Leve os exames a um endocrinologista se você tem cintura aumentada junto com pressão, glicose, triglicerídeos ou HDL fora do ideal, ou se já recebeu o diagnóstico de pré-diabetes. O endocrinologista avalia o conjunto das alterações, investiga condições associadas e ajuda a montar um plano de tratamento individual e de longo prazo. Se quiser avaliar o seu caso, veja como funciona o acompanhamento de diabetes e a consulta.

Perguntas frequentes

Quais exames identificam a síndrome metabólica?

O diagnóstico usa medidas simples: circunferência da cintura, pressão arterial e exames de sangue em jejum para glicose, triglicerídeos e colesterol HDL. A diretriz brasileira lembra que, pelo critério NCEP-ATP III, não é preciso fazer curva glicêmica nem testes sofisticados de resistência à insulina.

Pessoa sem obesidade pode ter síndrome metabólica?

Pode. Pelo critério NCEP-ATP III, a cintura aumentada não é obrigatória: basta reunir três dos cinco itens. Ainda assim, a cintura aumentada foi o componente mais frequente entre adultos brasileiros, presente em 65,5% no estudo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde, que usou cortes de cintura mais baixos que os do NCEP-ATP III.

Síndrome metabólica é o mesmo que pré-diabetes?

Não. O pré-diabetes diz respeito apenas à glicose. Na síndrome metabólica, a glicemia de jejum a partir de 100 mg/dL é um dos cinco critérios, ao lado da cintura, da pressão arterial, dos triglicerídeos e do HDL.

Dá para reverter a síndrome metabólica?

Os componentes podem melhorar com tratamento. A diretriz brasileira recomenda perda de peso sustentável de 5% a 10% do peso inicial, alimentação adequada e exercício regular. A resposta varia de pessoa para pessoa, e o acompanhamento é contínuo.

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Referências

  1. Arquivos Brasileiros de Cardiologia (SBC, SBH, SBEM, SBD e outras sociedades). I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (2005).
  2. Current Hypertension Reports, via PubMed Central. The global epidemic of the metabolic syndrome (2018).
  3. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretrizes Brasileiras de Obesidade 2016, 4ª edição (2016).
  4. Diabetes Care, via PubMed Central. Metabolic syndrome and incident diabetes: current state of the evidence (2008).
  5. New England Journal of Medicine, via PubMed Central. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin (Diabetes Prevention Program) (2002).
  6. Ciência & Saúde Coletiva (SciELO). Prevalência da síndrome metabólica e seus componentes na população adulta brasileira (2020).