O diabetes tipo 1 acontece quando o próprio sistema de defesa do corpo ataca as células beta do pâncreas, que produzem insulina. Sem insulina suficiente, a glicose não consegue entrar nas células e se acumula no sangue.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), é o tipo de diabetes mais comum em crianças e adolescentes, mas pode ser diagnosticado em qualquer idade. Entender como ele começa ajuda a reconhecer os sinais cedo e a evitar complicações graves logo no início.
O que causa o diabetes tipo 1?
De acordo com o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde, a destruição das células beta costuma ser causada por um processo autoimune, detectado no sangue pela presença de autoanticorpos. Os principais são o anti-GAD, o anti-IA2, o anti-insulina (IAA) e o anti-ilhota (ICA). Em uma parte menor dos casos a causa não é conhecida, e o quadro é chamado de diabetes tipo 1 idiopático.
A SBD descreve a doença em estágios, que podem começar anos antes dos sintomas:
| Estágio | O que acontece |
|---|---|
| 1 | Dois ou mais autoanticorpos positivos, glicose normal e nenhum sintoma |
| 2 | Dois ou mais autoanticorpos, glicose já alterada, mas ainda sem critério de diabetes e sem sintomas |
| 3 | Glicose alta o bastante para o diagnóstico de diabetes, com ou sem sintomas |
A SBD considera o diagnóstico de diabetes tipo 1 estabelecido já no estágio 1, quando há dois ou mais autoanticorpos positivos. Nos Estados Unidos, a agência reguladora de medicamentos (FDA) aprovou o teplizumabe para pessoas no estágio 2 a partir de 8 anos, com o objetivo de atrasar a chegada ao estágio 3. No Brasil, segundo a mesma diretriz, ainda não há medicação comprovadamente eficaz disponível para esse fim.
Quais são os sintomas do diabetes tipo 1?
O Ministério da Saúde lista os sinais de glicose muito alta:
- urinar muito, inclusive à noite;
- sede intensa;
- fome aumentada;
- perda de peso sem explicação.
Segundo a SBD, o quadro clássico costuma começar de forma rápida. Em adultos, a doença pode evoluir mais devagar e com sintomas mais brandos.
O que é cetoacidose diabética?
Quando falta insulina, o corpo passa a queimar gordura como combustível e produz corpos cetônicos, substâncias que deixam o sangue ácido. A SBD descreve a cetoacidose diabética como uma condição potencialmente grave, com aumento de corpos cetônicos, acidez no sangue, glicose alta e desequilíbrio de sais minerais.
O Ministério da Saúde cita como sinais náusea, vômitos, sonolência, torpor e coma, e alerta que o quadro pode levar à morte. A cetoacidose é mais comum na presença de infecções ou outro estresse agudo. Quem tem os sintomas clássicos e começa a vomitar ou ficar sonolento precisa de atendimento de urgência.
Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo é confirmar que há diabetes. Os critérios são os mesmos dos outros tipos de diabetes, usados pela SBD e pelo Protocolo Clínico do Ministério da Saúde:
| Exame | Resultado compatível com diabetes |
|---|---|
| Glicemia ao acaso, com sintomas clássicos | 200 mg/dL ou mais |
| Glicemia de jejum de 8 horas | 126 mg/dL ou mais, em duas ocasiões |
| Hemoglobina glicada | 6,5% ou mais, em duas ocasiões |
| Glicemia 2 horas após 75 g de glicose | 200 mg/dL ou mais |
Pela SBD, glicemia de jejum e hemoglobina glicada alteradas na mesma coleta também confirmam o diagnóstico.
Depois, é preciso saber o tipo. Segundo a SBD, dois exames ajudam quando há dúvida:
- Autoanticorpos: mostram o ataque autoimune ao pâncreas. O anti-GAD é o mais usado em adultos.
- Peptídeo C: é liberado junto com a insulina e indica quanto o pâncreas ainda produz. No diabetes tipo 2 em jovens, a SBD aponta que os anticorpos são negativos e o peptídeo C é normal ou alto.
Como é o tratamento do diabetes tipo 1?
Insulina desde o início
Para o Ministério da Saúde, a insulina é essencial no tratamento do diabetes tipo 1, tanto para controlar a glicose quanto para prevenir cetoacidose, coma, complicações e morte. Diante de glicose muito alta ou cetoacidose, o protocolo afirma que não há dúvida de que a insulina deve ser iniciada imediatamente.
A SBD indica como estratégia de escolha a terapia basal-bolus, iniciada cedo. Ela imita o funcionamento do pâncreas:
- Insulina basal: de ação intermediária ou longa, cobre a necessidade do corpo ao longo do dia e da noite.
- Bolus: insulina de ação rápida, aplicada nas refeições e para corrigir glicose alta.
Esse esquema pode ser feito com várias aplicações diárias de caneta ou seringa, ou com bomba de infusão de insulina, segundo a SBD. O tipo de insulina e as doses são definidos individualmente em consulta.
Educação para o autocuidado
O Ministério da Saúde inclui no tratamento a educação da pessoa e da família sobre alimentação, contagem de carboidratos, exercício, identificação e tratamento da hipoglicemia, aplicação de insulina e automonitorização da glicose. As metas de controle são definidas de forma individual, conforme a idade e a capacidade de reconhecer hipoglicemias.
Sensores e bombas de insulina
A Associação Americana de Diabetes (ADA), na edição de 2026 do seu guia de tecnologia, recomenda:
- Sensor de glicose (monitorização contínua): indicado desde o diagnóstico para crianças, adolescentes e adultos que usam insulina, usado o mais perto possível do uso diário.
- Sistemas automatizados de insulina: bombas conectadas ao sensor que ajustam a insulina conforme a glicose. A ADA os considera a forma preferida de aplicar insulina no diabetes tipo 1, à frente das múltiplas aplicações e das bombas comuns.
A ADA recomenda considerar essas tecnologias cedo, inclusive no diagnóstico, e não exigir dosagem de peptídeo C ou de anticorpos antes de indicar a bomba. Segundo a ADA, a escolha do aparelho depende das necessidades, das preferências e da habilidade de cada pessoa.
Diabetes tipo 1 em adultos e LADA
A SBD afirma que hoje há mais casos novos de diabetes tipo 1 diagnosticados na vida adulta do que na infância, e que muitos desses adultos são classificados por engano como tipo 2.
Uma parte deles tem LADA, sigla em inglês para diabetes autoimune latente do adulto. Segundo a SBD, até 12% dos casos de diabetes diagnosticados na vida adulta são dessa forma lentamente progressiva, que a Organização Mundial da Saúde considera híbrida, com traços dos tipos 1 e 2. Os critérios mais aceitos, citados pela SBD, são:
- idade acima de 30 anos no diagnóstico;
- anticorpos positivos;
- ausência de necessidade de insulina por pelo menos 6 meses após o diagnóstico.
A SBD também cita sinais que levantam a suspeita: diagnóstico antes dos 50 anos, sintomas agudos, IMC abaixo de 25 kg/m² e história pessoal ou familiar de doenças autoimunes. Nesses casos, o Ministério da Saúde indica dosar o peptídeo C e pelo menos um marcador de autoimunidade. Como a produção de insulina tende a cair com o tempo, o tratamento é reavaliado ao longo do acompanhamento.
Quando procurar um endocrinologista?
Vale procurar avaliação se você tem sede e urina em excesso com perda de peso, se recebeu diagnóstico de diabetes tipo 2 com pouca resposta ao tratamento e peso normal, ou se já tem diabetes tipo 1 e quer discutir sensores e bombas. Sintomas de cetoacidose pedem pronto-socorro, não consulta agendada. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende presencialmente e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de diabetes e a consulta.