Receber um exame com a palavra "pré-diabetes" costuma gerar duas reações opostas: susto ou descaso. Nenhuma das duas ajuda. O pré-diabetes não é diabetes, mas mostra que o controle da glicose já saiu da faixa normal e que o risco de diabetes tipo 2 aumentou.
A prevenção nessa fase já foi testada em grandes estudos, que acompanharam milhares de pessoas e mediram o efeito de mudar hábitos e de usar medicamento.
Quais são os critérios de pré-diabetes?
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) define pré-diabetes pelos exames de sangue abaixo. Basta um deles na faixa para caracterizar a condição:
| Exame | Faixa de pré-diabetes (SBD) |
|---|---|
| Glicemia de jejum | 100 a 125 mg/dL |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | 5,7% a 6,4% |
| Curva glicêmica, 1 hora | 155 a 208 mg/dL |
| Curva glicêmica, 2 horas | 140 a 199 mg/dL |
Segundo o NIDDK, instituto de diabetes e doenças renais do governo dos Estados Unidos, o pré-diabetes costuma não dar sintomas. Por isso ele é descoberto em exames de rotina. A SBD recomenda o rastreamento para todas as pessoas a partir de 35 anos e para adultos mais jovens com sobrepeso ou obesidade e pelo menos um fator de risco adicional, como:
- diabetes tipo 2 em parente de primeiro grau;
- doença cardiovascular ou pressão alta;
- HDL abaixo de 35 mg/dL ou triglicerídeos acima de 250 mg/dL;
- síndrome dos ovários policísticos;
- acantose nigricans (escurecimento da pele em dobras, como pescoço e axilas);
- sedentarismo;
- diabetes gestacional prévio.
Qual o risco de o pré-diabetes virar diabetes?
O risco existe, mas o destino não está traçado. A diretriz de tratamento do pré-diabetes da SBD resume assim a evolução em 3 a 5 anos de observação: cerca de 25% das pessoas progridem para diabetes tipo 2, 50% permanecem como estão e 25% voltam à glicose normal.
O grupo não é homogêneo. Segundo a SBD, quem tem valores mais próximos do limite de diabetes tem maior chance de progredir. A diretriz cita o estudo americano ARIC, em que pessoas com HbA1c de 6% a menos de 6,5% tiveram risco de diabetes 4,48 vezes maior que as que tinham HbA1c de 5% a menos de 5,5%.
O que os estudos mostram sobre a prevenção do diabetes tipo 2?
O estudo DPP
O Diabetes Prevention Program (DPP) é o estudo mais citado sobre o tema. Segundo o NIDDK, ele incluiu 3.234 pessoas com alto risco de diabetes em 27 centros dos Estados Unidos, entre 1996 e 2001. O grupo de mudança de estilo de vida tinha como metas perder 7% do peso e fazer 150 minutos de exercício por semana.
Os resultados, após cerca de 3 anos, comparados ao placebo:
- mudança de estilo de vida: redução de 58% no risco de diabetes tipo 2, chegando a 71% nas pessoas com 60 anos ou mais;
- metformina: redução de 31%.
O acompanhamento de longo prazo (DPPOS) mostrou que o efeito se manteve em parte. Após 15 anos, o diabetes continuava 27% menos frequente no grupo de estilo de vida e 18% menos frequente no grupo metformina, segundo o NIDDK e a SBD.
O estudo finlandês
A SBD cita também o Finnish Diabetes Prevention Study, com 522 participantes. Em 4 anos, o diabetes apareceu em 11% do grupo que recebeu orientação de estilo de vida e em 23% do grupo controle, uma redução de risco de 58%.
Na prática, o que ajuda a evitar o diabetes tipo 2?
A diretriz da SBD recomenda mudança de estilo de vida, com perda de peso, alimentação saudável e mais atividade física, para todas as pessoas com pré-diabetes. A diretriz de atividade física detalha as metas:
- pelo menos 150 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade moderada, como caminhada;
- redução mínima de 7% do peso, com manutenção do peso perdido;
- menos tempo sentado ao longo do dia.
O NIDDK inclui dormir o suficiente entre os hábitos que ajudam e aponta o tabagismo como um fator de risco que pode ser mudado. Você não precisa fazer tudo de uma vez: o próprio NIDDK sugere começar por mudanças pequenas.
Quando se considera a metformina?
A metformina é um medicamento usado no tratamento do diabetes tipo 2. Na diretriz da SBD, o uso dela no pré-diabetes, sempre junto com a mudança de estilo de vida, deve ser considerado em adultos com:
- idade abaixo de 60 anos;
- IMC acima de 35 kg/m²;
- histórico de diabetes gestacional;
- síndrome metabólica;
- pressão alta;
- glicemia de jejum acima de 110 mg/dL.
A SBD recomenda dosar a vitamina B12 periodicamente em quem usa metformina, pelo risco de deficiência. A diretriz também menciona outros remédios que reduziram o risco em estudos, como acarbose, liraglutida, pioglitazona e orlistate, mas com recomendação mais fraca. A indicação de qualquer medicamento é individual e feita em consulta.
Como é o acompanhamento de quem tem pré-diabetes?
Segundo a SBD, quem tem pré-diabetes deve repetir os exames em 12 meses, ou entre 6 e 12 meses quando os valores estão muito perto do limite de diabetes. Para adultos com pré-diabetes identificado pela glicemia de jejum e pela HbA1c, a diretriz recomenda também a curva glicêmica de 1 hora, que pode revelar diabetes ainda não detectado. O NIDDK lembra que o colesterol e os triglicerídeos podem subir nessa fase, e o médico pode pedir exames para avaliá-los.
Quando procurar um endocrinologista?
Vale buscar avaliação se você recebeu o diagnóstico de pré-diabetes, se os seus valores estão perto do limite de diabetes ou se tem vários fatores de risco, como excesso de peso, diabetes gestacional prévio ou síndrome dos ovários policísticos. A Dra. Natália Brito é endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, no bairro Jóquei, em Teresina, e por teleconsulta. Se quiser avaliar seu caso, veja como funciona o acompanhamento de diabetes e a consulta.