A metformina é um comprimido usado para controlar a glicose no diabetes tipo 2. Ela também aparece em outras situações, como a prevenção do diabetes em pessoas de alto risco e a síndrome dos ovários policísticos, sempre com indicação médica.
Por ser tão receitada, a metformina junta muitas dúvidas: se emagrece, se faz mal aos rins, por que dá diarreia. A seguir, o que as diretrizes dizem sobre cada ponto.
Para que serve a metformina?
Diabetes tipo 2
Na diretriz de 2026 da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a metformina é o tratamento inicial para quem acabou de receber o diagnóstico de diabetes tipo 2, não tem doença do coração ou dos rins, tem risco cardiovascular baixo ou intermediário e hemoglobina glicada entre 6,5% e 7,5%. Acima desse valor, a SBD recomenda começar com a metformina associada a um segundo remédio. Em pessoas de alto risco cardiovascular, a mesma diretriz indica classes com benefício cardiovascular comprovado (inibidores de SGLT2 e agonistas de GLP-1), independentemente da glicada.
Segundo a SBD, a metformina reduz a glicemia de jejum em 60 a 70 mg/dL e a hemoglobina glicada em 1,5 a 2 pontos percentuais. No estudo UKPDS 34, citado pela mesma diretriz, quem usou metformina teve redução de 32% nos desfechos ligados ao diabetes em comparação com a dieta isolada. A Associação Americana de Diabetes (ADA) resume assim: é um remédio eficaz, seguro, barato e que reduz o risco de complicações nos pequenos vasos, de eventos cardiovasculares e de morte. A SBD é mais cautelosa nesse ponto e considera que o papel da metformina na redução de eventos cardiovasculares ainda não está claro.
Pré-diabetes, em casos selecionados
Para todas as pessoas com pré-diabetes, a primeira recomendação da SBD é mudar o estilo de vida, com perda de peso, alimentação saudável e atividade física. A metformina deve ser considerada junto com essas medidas em situações específicas:
- idade abaixo de 60 anos;
- obesidade com índice de massa corporal (IMC) acima de 35 kg/m²;
- história de diabetes gestacional;
- síndrome metabólica ou pressão alta;
- glicemia de jejum acima de 110 mg/dL.
No estudo DPP, descrito pela SBD, a mudança intensiva de estilo de vida reduziu o risco de diabetes em 58%, e a metformina, em 31%, em comparação com placebo. A ADA traz critérios parecidos na sua seção sobre prevenção.
Síndrome dos ovários policísticos (SOP)
A diretriz internacional de SOP publicada em 2023 recomenda considerar a metformina em mulheres adultas com SOP e IMC a partir de 25 kg/m², para melhorar medidas corporais, resistência à insulina, glicose e gorduras no sangue. Abaixo desse IMC, o uso pode ser considerado, com evidência mais limitada. O mesmo documento informa que a metformina e a mudança ativa de estilo de vida têm eficácia parecida, e que o anticoncepcional combinado pode ser preferido à metformina quando o objetivo é tratar excesso de pelos com ciclos irregulares.
Como a metformina age?
Segundo a SBD, a metformina aumenta a sensibilidade do fígado à insulina. Com isso, o fígado produz menos glicose. Ela também aumenta a captação de glicose pelos músculos.
A metformina não força o pâncreas a produzir mais insulina. Por isso, usada sozinha, tem baixo risco de hipoglicemia (glicose baixa), como apontam a SBD e a ADA. Ela é eliminada pelos rins, e é daí que vem o cuidado com a função renal.
Quais são os efeitos colaterais da metformina?
Os efeitos mais comuns são no intestino. De acordo com a SBD, diarreia, náusea e vômitos atingem mais de 10% de quem usa a formulação de liberação imediata e menos de 10% com a de liberação prolongada (XR). A lista da SBD inclui ainda dor abdominal, prisão de ventre, estufamento, azia, gases, tontura, dor de cabeça e alteração do paladar.
Como diminuir o desconforto
A ADA e a diretriz de SOP apontam três estratégias, que o médico adapta a cada caso:
- início com dose baixa e aumento gradual, definidos pelo médico;
- tomar o comprimido junto com a refeição;
- usar a formulação de liberação prolongada, quando indicado.
A diretriz de SOP descreve esses efeitos como geralmente leves, ligados à dose e passageiros. Se o desconforto persistir, converse com o médico antes de parar por conta própria. A dose e a forma de uso são decisões individuais, feitas em consulta.
Metformina e vitamina B12: por que checar?
Segundo a ADA, o uso de metformina está associado a maior risco de deficiência de vitamina B12 e de piora dos sintomas de neuropatia (lesão dos nervos, que causa formigamento e dormência). O risco cresce com o tempo de uso e com doses mais altas.
A SBD recomenda avaliar a vitamina B12 uma vez por ano a partir de 4 anos de tratamento e repor quando necessário. A ADA reforça a checagem em quem tem anemia ou neuropatia periférica.
Quem não pode usar metformina?
A SBD lista como contraindicações:
- alergia à metformina;
- cetoacidose diabética;
- doença renal com filtração abaixo de 30 mL/min/1,73 m²;
- insuficiência cardíaca congestiva;
- amamentação.
Quando a filtração dos rins está entre 30 e 45 mL/min/1,73 m², a SBD orienta reduzir a dose. Abaixo de 30, o remédio deve ser suspenso.
O motivo é a acidose lática, um acúmulo de ácido no sangue. Segundo a ADA, ela é muito rara e acontece principalmente quando a filtração cai abaixo de 30. A SBD cita como sinais de alerta mal-estar, dores musculares, respiração acelerada e sonolência, que pedem atendimento médico imediato. A diretriz aponta risco maior em pessoas acima de 65 anos, com doença do fígado ou consumo excessivo de álcool. Em quem tem filtração entre 30 e 60, doença do fígado, insuficiência cardíaca ou abuso de álcool, a SBD orienta interromper a metformina quando for feito exame com contraste iodado, com retorno só após liberação médica. Por isso, avise que usa metformina ao marcar esse tipo de exame e siga a orientação do seu médico.
Gestantes, mulheres que amamentam e as que planejam engravidar devem conversar com o médico, porque o uso nessas fases segue critérios próprios.
Metformina emagrece? Mitos comuns
“Metformina é remédio para emagrecer.” Não é. A ADA descreve seu efeito sobre o peso como neutro ou de perda modesta, e a SBD o classifica como neutro. Na SOP, a diretriz de 2023 considera o uso para desfechos de peso e metabolismo, mas com evidência de qualidade muito baixa.
“Metformina faz mal aos rins.” O cuidado com os rins existe porque ela é eliminada por eles. Quando a filtração cai, o remédio pode se acumular. A ADA considera o uso seguro com filtração a partir de 30 mL/min/1,73 m².
“Quem toma metformina não precisa mudar a alimentação.” No estudo DPP, a mudança de estilo de vida reduziu mais o risco de diabetes do que a metformina: 58% contra 31%, segundo a SBD. O remédio funciona melhor como parte do tratamento, não como substituto dos hábitos.
Quando procurar um endocrinologista?
O acompanhamento com endocrinologista é indicado se você recebeu diagnóstico de diabetes ou pré-diabetes, tem efeitos colaterais que atrapalham o tratamento, usa metformina há anos sem checar a vitamina B12 ou tem alguma alteração nos rins. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende presencialmente e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de diabetes e a consulta.