Hipoglicemia é o nome dado à glicose baixa no sangue. Ela aparece com mais frequência em quem trata o diabetes com insulina ou com alguns comprimidos que estimulam o pâncreas, mas também pode acontecer, raramente, em pessoas sem diabetes.
Quem tem risco, e quem convive com essa pessoa, precisa saber reconhecer os sinais cedo, corrigir a glicose e perceber a hora de pedir ajuda.
O que é hipoglicemia e quais são os níveis?
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Americana de Diabetes (ADA) usam a mesma classificação, em três níveis:
| Nível | Glicose no sangue | O que significa |
|---|---|---|
| 1 | De 54 a 69 mg/dL | Já é relevante, mesmo sem sintomas, e pede correção |
| 2 | Abaixo de 54 mg/dL | Mais grave. É quando começam os sintomas de falta de glicose no cérebro, e a correção precisa ser imediata |
| 3 | Qualquer valor | Alteração mental ou física em que a pessoa precisa da ajuda de outra para se recuperar |
Para quem usa sensor de glicose, a SBD recomenda que o tempo abaixo de 70 mg/dL fique em menos de 4% do dia (cerca de 1 hora) e o tempo abaixo de 54 mg/dL, em menos de 1% (cerca de 15 minutos).
Quais são os sintomas de hipoglicemia?
Segundo a SBD, os sinais mais comuns são tremor, irritabilidade, confusão, coração acelerado (taquicardia), suor e fome. Uma revisão publicada em 2025 no Journal of Clinical Medicine separa os sintomas em dois grupos:
- Alarme do corpo: suor, tremor, palpitação, ansiedade e formigamento. São reações dos hormônios de defesa à queda da glicose.
- Falta de glicose no cérebro: fraqueza, cansaço, raciocínio lento ou confuso e, nos casos graves, convulsão e coma.
Algumas pessoas deixam de sentir os primeiros sinais. É a chamada percepção reduzida da hipoglicemia. Segundo o material do Departamento de Enfermagem da SBD, ela está associada a um risco seis vezes maior de hipoglicemia grave.
O que fazer na hipoglicemia? A regra dos 15
Para quem está acordado e consegue engolir, a SBD e a ADA orientam a regra dos 15:
- Confirme, se puder. Meça a glicose no glicosímetro. Sem aparelho por perto, o material de enfermagem da SBD orienta não adiar o tratamento.
- Ingira 15 g de carboidrato de absorção rápida. Exemplos citados pela SBD: uma colher de sopa de açúcar em meio copo de água, 3 balas moles, uma colher de sopa de mel, 150 mL de refrigerante comum, um copo de suco de laranja integral ou um sachê de glicose.
- Espere 15 minutos e meça de novo. Segundo o mesmo material, essa quantidade costuma elevar a glicose em 30 a 40 mg/dL nesse intervalo.
- Repita se continuar baixa. A ADA recomenda repetir o tratamento se a hipoglicemia persistir 15 minutos depois.
- Evite uma nova queda. Com a glicose normalizada, a SBD sugere um lanche com fibras, proteína e gordura boa se a próxima refeição ainda for demorar mais de uma hora.
Na hipoglicemia de nível 2, a SBD orienta dobrar a quantidade, para 30 g de carboidrato. A ADA mantém 15 g para a maioria das pessoas.
O que não usar para corrigir
Chocolate, leite, doce de leite, biscoito recheado e alimentos integrais não servem para a correção. Gordura, proteína e fibra atrasam o esvaziamento do estômago e, com isso, a subida da glicose. A SBD e a ADA orientam usar carboidrato simples, de preferência glicose, sem misturar com outros alimentos nesse primeiro momento.
O plano de correção de cada pessoa, principalmente de crianças e de quem usa bomba de insulina, é definido em consulta.
Por que a hipoglicemia acontece em quem trata diabetes?
A ADA considera em risco quem usa insulina, sulfonilureias (comprimidos que estimulam o pâncreas a liberar insulina, como glibenclamida e gliclazida) ou meglitinidas. Com as outras classes de remédio para diabetes, hipoglicemia importante é rara.
A SBD cita como situações de risco o jejum, o exercício intenso e o atraso nas refeições. O material de enfermagem da SBD acrescenta:
- dose de insulina maior que a necessária;
- refeição pulada ou comida só em parte;
- alterações no sono;
- consumo de álcool, mais citado entre adolescentes.
A ADA aponta como fatores de maior peso um episódio de nível 2 ou 3 nos últimos 3 a 6 meses, o tratamento intensivo com insulina, a percepção reduzida da hipoglicemia, a doença renal em estágio terminal e a demência. Um episódio grave no passado é o que mais prevê o próximo.
A mesma diretriz recomenda glucagon prescrito para todas as pessoas que usam insulina. O glucagon é um hormônio que eleva a glicose e pode ser aplicado por familiares treinados. Para quem tem risco alto, a ADA recomenda que o médico reduza ou troque os remédios que causam hipoglicemia. Não mude doses por conta própria.
Hipoglicemia em quem não tem diabetes: como investigar?
Em adultos sem diabetes, a hipoglicemia verdadeira é rara, segundo a revisão de 2025 do Journal of Clinical Medicine. Nessas pessoas, os sintomas costumam surgir com a glicose em torno de 55 mg/dL.
O ponto de partida é confirmar a chamada tríade de Whipple:
- sintomas compatíveis com hipoglicemia;
- glicose baixa medida por um método confiável;
- melhora dos sintomas quando a glicose volta ao normal.
A mesma revisão lembra que glicosímetros domésticos perdem precisão na faixa baixa e que sensores podem mostrar valores falsamente baixos quando ficam comprimidos, por exemplo, ao dormir sobre eles.
Confirmada a hipoglicemia, os autores dividem as causas em dois grupos:
- Sem excesso de insulina: doenças graves, insuficiência adrenal (falta de cortisol), desnutrição, álcool, alguns medicamentos e certos tumores.
- Com excesso de insulina: uso de insulina ou de sulfonilureia (inclusive por engano), insulinoma (tumor do pâncreas que produz insulina), hipoglicemia depois de cirurgia bariátrica e doença autoimune contra a insulina.
A conversa vem primeiro: remédios, suplementos, álcool, horário dos sintomas e relação com as refeições. Exames colhidos durante o episódio, como glicose, insulina e peptídeo C, ajudam a separar os dois grupos. Quando há suspeita de insulinoma, a revisão cita o jejum supervisionado de até 72 horas como etapa padrão.
Quando a hipoglicemia é uma emergência?
É emergência quando a pessoa precisa da ajuda de outra para se recuperar, a hipoglicemia de nível 3. Segundo a ADA, esse episódio pode evoluir para perda de consciência, convulsão, coma e morte.
Se a pessoa está confusa ou estranha, mas acordada e consegue engolir, ajude-a a tomar o açúcar da regra dos 15, como orienta o material de enfermagem da SBD. Se ela não melhorar, piorar ou ficar sonolenta, siga os passos abaixo.
Se a pessoa está sonolenta, desmaiada, em convulsão ou não consegue engolir:
- Ligue na hora para o SAMU (192). É o que a ADA orienta para quem não está alerta.
- Deite a pessoa de lado, como recomenda o material da SBD.
- Não ofereça comida nem bebida pela boca, pelo risco de engasgo, como orienta a SBD.
- Aplique o glucagon, se houver um prescrito e alguém treinado, sem esperar a ambulância.
- Quando ela acordar e conseguir engolir, ofereça açúcar e, depois, um lanche.
Depois de um episódio grave, o tratamento precisa ser revisto com o médico.
Quando procurar um endocrinologista?
Marque uma avaliação com endocrinologista se você tem hipoglicemias frequentes, já teve um episódio grave, deixou de sentir os sinais de alerta ou não tem diabetes e apresenta sintomas repetidos de glicose baixa. A Dra. Natália Brito é endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674) e atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de diabetes e a consulta.