A hemoglobina glicada aparece em quase todo pedido de exame de quem investiga ou trata diabetes. Ela é conhecida pela sigla HbA1c ou, em alguns laboratórios, como A1C. Diferente da glicemia, que mostra a glicose de um momento só, ela dá uma ideia de como a glicose se comportou nos meses anteriores à coleta.
Por isso o mesmo exame serve para duas coisas: ajudar no diagnóstico de pré-diabetes e diabetes e acompanhar o tratamento de quem já tem a doença. A seguir, você vê o que ele mede, como ler o resultado e quando ele pode enganar.
O que a hemoglobina glicada mede?
A hemoglobina é a proteína das hemácias (glóbulos vermelhos) que transporta oxigênio. A glicose que circula no sangue se liga a ela de forma permanente, num processo chamado glicação. Quanto mais glicose no sangue, maior a parte da hemoglobina que fica "açucarada".
Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), essa ligação acontece durante a vida da hemácia, de 3 a 4 meses. O peso de cada mês não é igual: cerca de 50% do resultado corresponde ao mês anterior ao exame, 25% ao mês antes desse e 25% ao terceiro e quarto meses. Na prática, a SBD descreve a HbA1c como reflexo da glicemia média de 2 a 3 meses.
Duas consequências práticas:
- o exame não depende do que você comeu no dia anterior e, segundo o NIDDK (instituto de diabetes e doenças renais do governo dos Estados Unidos), não exige jejum;
- mudanças recentes no tratamento levam algumas semanas para aparecer por completo no resultado.
Quais são os valores de referência da hemoglobina glicada?
Para adultos fora da gestação, a diretriz da SBD usa estes pontos de corte:
| Resultado da HbA1c | Interpretação (SBD) |
|---|---|
| Abaixo de 5,7% | Normal |
| De 5,7% a 6,4% | Pré-diabetes |
| 6,5% ou mais | Diabetes |
Um valor alterado isolado não fecha o diagnóstico. A SBD recomenda repetir o exame para confirmar quando só um teste está alterado. A exceção é quando a glicemia de jejum dá 126 mg/dL ou mais e a HbA1c dá 6,5% ou mais na mesma amostra de sangue: nesse caso, a diretriz considera o diagnóstico de diabetes estabelecido.
A SBD também orienta que os laboratórios usem métodos certificados pelo NGSP, programa internacional que padroniza a dosagem. Isso permite comparar resultados de laboratórios diferentes.
Por que o médico pede HbA1c e glicemia juntas?
Os dois exames se complementam. A diretriz da SBD recomenda a glicemia de jejum e a HbA1c como primeiros testes de rastreamento do diabetes tipo 2, indicado para todas as pessoas a partir de 35 anos e para adultos mais jovens com excesso de peso e outro fator de risco.
A HbA1c é muito específica, mas deixa passar alguns casos. Segundo a SBD, o ponto de corte de 6,5% tem sensibilidade de 47% a 67% em relação à curva glicêmica de 2 horas. Ou seja, uma HbA1c normal não afasta o diabetes em todas as pessoas.
Qual é a meta de hemoglobina glicada no tratamento?
Para quem já tem diabetes, a HbA1c é o principal termômetro do controle. A diretriz de metas da SBD recomenda HbA1c abaixo de 7% para adultos com diabetes, para prevenir complicações nos pequenos vasos (olhos, rins e nervos) e nos grandes vasos, desde que isso não cause hipoglicemias graves ou frequentes.
A meta muda conforme a pessoa. Na tabela da SBD:
- adultos e crianças ou adolescentes: abaixo de 7,0%;
- idoso saudável: abaixo de 7,5%;
- idoso com várias doenças crônicas ou limitação funcional: abaixo de 8,0%;
- idoso muito comprometido: a tabela não fixa meta de HbA1c.
Para ter uma noção do que o número representa, a SBD traz esta correspondência, baseada no estudo ADAG:
| HbA1c | Glicemia média estimada |
|---|---|
| 6% | 126 mg/dL |
| 7% | 154 mg/dL |
| 8% | 183 mg/dL |
| 9% | 212 mg/dL |
A própria SBD lembra um limite: a HbA1c não mostra a variação da glicose ao longo do dia. Duas pessoas com o mesmo resultado podem ter glicemias estáveis ou oscilações grandes. Por isso a diretriz sugere combinar o exame com glicemia capilar ou sensor de glicose.
Que situações podem alterar o resultado?
Como o exame depende das hemácias, tudo que muda a vida dessas células ou a própria hemoglobina pode distorcer o número. A diretriz da SBD lista estas situações:
- variantes de hemoglobina e hemoglobinopatias (o NIDDK cita como exemplos a anemia falciforme e a talassemia);
- anemias;
- gestação e puerpério;
- transfusões de sangue;
- doença renal crônica;
- uso de eritropoetina recombinante;
- uso de antirretrovirais.
O NIDDK acrescenta que perda de sangue recente e hemodiálise podem mudar a HbA1c e que a deficiência de ferro pode elevar o resultado de forma falsa. A SBD registra ainda que pessoas afrodescendentes podem ter HbA1c mais alta do que o esperado para a glicose, com risco de diagnóstico falso-positivo. Quando a HbA1c e as glicemias não combinam, vale investigar interferência antes de tirar conclusões.
E na gestação?
Na gravidez, a renovação das hemácias muda e a HbA1c perde precisão. Segundo a diretriz de gestação da SBD, a sensibilidade da HbA1c para diabetes gestacional fica entre 14,5% e 21%, baixa demais para rastreamento. Ela pode ser considerada na primeira consulta de pré-natal para identificar diabetes em gestantes que ainda não sabiam ter a doença (6,5% ou mais). O diagnóstico de diabetes gestacional é feito pela glicemia de jejum no início do pré-natal (de 92 a 125 mg/dL) e pela curva glicêmica com 75 g entre a 24ª e a 28ª semana.
Quando procurar um endocrinologista?
Vale procurar avaliação se a sua HbA1c veio na faixa de pré-diabetes ou de diabetes, se o resultado não combina com as suas glicemias ou se você já trata diabetes e não atinge a meta combinada. A Dra. Natália Brito é endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674) e atende no Instituto Essência, no bairro Jóquei, em Teresina, e por teleconsulta. Se quiser avaliar seu caso, veja como funciona o acompanhamento de diabetes e a consulta.