A tireoidite de Hashimoto é uma inflamação crônica da tireoide provocada pelo próprio sistema imunológico. Anticorpos passam a atacar a glândula e, ao longo dos anos, podem destruir parte das células que produzem os hormônios tireoidianos. Segundo o Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), ela é a causa mais frequente de hipotireoidismo, que é a queda na produção desses hormônios.
Ter Hashimoto não é sinônimo de tomar remédio: o que decide o tratamento é como a tireoide está funcionando.
Quem tem mais risco de ter Hashimoto?
A causa exata não é conhecida. O Departamento de Tireoide da SBEM descreve uma combinação de predisposição genética com fatores do ambiente, como o excesso de iodo. Alguns grupos têm mais risco:
- Mulheres: a doença é de cinco a oito vezes mais comum nelas do que nos homens, segundo a SBEM.
- Pessoas mais velhas: a chance aumenta com a idade, embora crianças também possam ter a doença.
- Quem tem parentes com doença autoimune da tireoide.
- Quem tem outras doenças autoimunes ou certas síndromes genéticas: a diretriz latino-americana de hipotireoidismo, publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, cita diabetes tipo 1, lúpus, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren, vitiligo e as síndromes de Down e de Turner entre os grupos que merecem investigação.
Quais são os sintomas da tireoidite de Hashimoto?
No começo, a maioria das pessoas não sente nada. A SBEM explica que a tireoide tem muita reserva e continua suprindo o organismo mesmo sob ataque. Segundo a diretriz latino-americana, a glândula costuma estar aumentada na tireoidite autoimune, e às vezes esse aumento aparece como um volume no pescoço, o bócio.
Quando a produção de hormônio cai e surge o hipotireoidismo, podem aparecer:
- cansaço, fraqueza e lentidão;
- sensação de frio;
- intestino preso;
- pele seca e queda de cabelo;
- falhas de memória;
- inchaço nas pálpebras e no rosto;
- ganho de peso.
A diretriz latino-americana, que lista esses sinais, alerta que eles são pouco específicos, principalmente em idosos. Quem confirma o diagnóstico são os exames.
Como é feito o diagnóstico de Hashimoto?
Os exames mais usados são estes:
| Exame | Para que serve |
|---|---|
| TSH | Hormônio da hipófise que sobe quando a tireoide produz pouco; é o exame mais sensível para detectar hipotireoidismo |
| T4 livre | Mostra se o hormônio da tireoide já caiu ou se ainda está normal |
| Anti-TPO | Anticorpo contra a tireoperoxidase, enzima da tireoide; indica autoimunidade |
| Ultrassom | Mostra alterações na textura da glândula; não é pedido de rotina |
O anti-TPO é considerado a marca registrada da doença. Segundo a diretriz latino-americana, ele aparece em quase todos os pacientes com Hashimoto, com sensibilidade de 91,9%. O anticorpo também aparece em quem não tem doença: no estudo americano NHANES III, citado na diretriz, 12,6% das pessoas sem problema de tireoide conhecido tinham anti-TPO positivo. Sozinho, ele indica risco, e não uma doença que precise de remédio.
A faixa normal do TSH depende do método de cada laboratório; o consenso da SBEM sobre hipotireoidismo subclínico usa 0,4 a 4,5 mU/L para adultos. Acima do limite, com T4 livre normal, fala-se em hipotireoidismo subclínico. O consenso recomenda repetir o TSH em cerca de três meses antes de concluir, porque parte dessas elevações é passageira.
No ultrassom, a tireoidite costuma deixar a glândula heterogênea e mais escura na imagem (hipoecogênica). A diretriz latino-americana não recomenda o exame de rotina no hipotireoidismo; ele ajuda quando os anticorpos são negativos ou para estimar o risco de progressão. A SBEM lembra que o ultrassom é muito sensível para nódulos e, sem indicação, pode gerar confusão.
Hashimoto sempre vira hipotireoidismo?
Não. Segundo o Departamento de Tireoide da SBEM, apenas cerca de 3% a 5% das pessoas com anticorpos positivos desenvolvem hipotireoidismo a cada ano, e o processo costuma levar anos.
O consenso da SBEM aponta o que aumenta a chance de progressão: sexo feminino, TSH mais alto, anticorpos positivos e excesso de iodo.
Quando o tratamento é necessário?
O tratamento é a reposição do hormônio com levotiroxina, que é o próprio T4 feito em laboratório. O Departamento de Tireoide da SBEM explica que não se trata a inflamação em si, e sim a consequência dela: a falta de hormônio.
As diretrizes seguem, em linhas gerais, esta lógica:
- TSH normal com anticorpo positivo: fora da gravidez, não há indicação de remédio, e o acompanhamento é feito com dosagens de TSH.
- TSH persistentemente acima de 10 mU/L: o consenso da SBEM recomenda tratar todos os pacientes.
- TSH entre 4,5 e 10 mU/L: o tratamento pode ser considerado em grupos específicos, como mulheres com anti-TPO positivo e TSH subindo ao longo do tempo. Acima de 65 anos, o consenso só recomenda tratar quando o TSH fica acima de 10 mU/L de forma sustentada.
- T4 livre baixo (hipotireoidismo clínico): há indicação de reposição hormonal.
Segundo a SBEM, a dose varia conforme sexo, idade e peso, e é definida em consulta.
Quem tem Hashimoto pode engravidar?
Segundo a diretriz latino-americana, a necessidade de hormônio da tireoide aumenta já entre a 4ª e a 6ª semana de gravidez e continua subindo até a 16ª a 20ª semana. O posicionamento da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) com o Departamento de Tireoide da SBEM, de 2022, e a diretriz de 2026 da American Thyroid Association (ATA) concordam que o anti-TPO positivo aumenta o risco de complicações na gestação, mesmo com a tireoide funcionando bem, e que essas mulheres devem repetir o TSH durante a gravidez. Quem já usa levotiroxina costuma precisar de ajuste da dose logo no início, feito pelo médico.
Eles divergem sobre quando começar o remédio:
| TSH na gestação | Febrasgo e SBEM (2022) | ATA (2026) |
|---|---|---|
| Entre 2,5 e 4,0 mU/L | Indica levotiroxina | Não indica |
| Acima do limite e até 10 mU/L, com T4 livre normal | Indica levotiroxina | Pode ser considerada no 1º trimestre; depois dele, não indica e repete o TSH em 4 a 6 semanas |
| Acima de 10 mU/L | Indica levotiroxina | Indica levotiroxina |
As duas lembram que o anti-TPO positivo também aumenta o risco de tireoidite pós-parto.
Dieta sem glúten e selênio funcionam?
São temas com muita promessa e pouca evidência.
- Dieta sem glúten: uma metanálise publicada em 2023 na revista Frontiers in Endocrinology reuniu 4 estudos, com 87 pacientes com Hashimoto sem doença celíaca. Os autores viram sinais de efeito, mas concluíram que as evidências não bastam para recomendar a dieta a todos. Segundo eles, doença celíaca e outras condições ligadas ao glúten aparecem em 2% a 9% das pessoas com Hashimoto; quem tem doença celíaca precisa retirar o glúten.
- Selênio: na gravidez, a ATA (2026) recomenda não oferecer o suplemento a gestantes com anti-TPO positivo e função normal, porque não há dados de que ele melhore os desfechos da gestação. Fora da gestação, converse com o médico antes de usar qualquer suplemento.
A SBEM lembra que o iodo é matéria-prima dos hormônios tireoidianos e não deve ser cortado da dieta. O que se evita é o excesso.
Quando procurar um endocrinologista?
Consulte um endocrinologista se você recebeu um anti-TPO positivo, tem TSH alterado, notou aumento no pescoço ou planeja engravidar. O especialista interpreta os exames e decide se e quando a levotiroxina é necessária. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, no bairro Jóquei, em Teresina (PI), e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de tireoide e a consulta.