O anti-TPO costuma ser pedido junto com o TSH para investigar a tireoide, e o laudo “positivo” ou “reagente” leva muita gente a achar que já tem uma doença. Nem sempre é assim. O anticorpo mostra uma tendência autoimune da tireoide, e o que define se há doença é a função da glândula, medida principalmente pelo TSH.
O que é o anti-TPO?
A tireoperoxidase (TPO) é uma enzima essencial para a tireoide fabricar seus hormônios. O anti-TPO é um autoanticorpo, ou seja, um anticorpo produzido pelo próprio organismo contra essa enzima.
Segundo a diretriz da Sociedade Latino-Americana de Tireoide (LATS), publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, o anti-TPO é a marca registrada da doença autoimune da tireoide. Ele está presente em quase todas as pessoas com tireoidite de Hashimoto, com sensibilidade de 91,9% e especificidade de 92,7%. A mesma diretriz relata o anticorpo em cerca de 75% dos casos de doença de Graves e em dois terços dos casos de tireoidite pós-parto.
O que é “positivo”? Uma revisão publicada em 2005 lembra que os métodos atuais são tão sensíveis que encontram títulos muito baixos em quase todo mundo. Por isso cada laboratório define um ponto de corte, e o risco aumenta quando o valor passa dele.
Anti-TPO positivo quer dizer que tenho Hashimoto?
Não necessariamente. O anticorpo é comum em pessoas com a tireoide funcionando bem: a revisão de 2005 cita prevalência de 12% a 26% nesse grupo. Entre mulheres em idade fértil, a diretriz de 2026 da American Thyroid Association (ATA) estima de 5% a 15%, com média mundial de 9%.
A ATA resume a questão assim: anti-TPO positivo com função normal deve ser visto como fator de risco para doença da tireoide, e não como uma doença em si. O diagnóstico de Hashimoto com hipotireoidismo depende do conjunto: TSH, T4 livre, anticorpos e, em alguns casos, ultrassom.
A LATS aponta que o anticorpo fica mais frequente com a idade e em pessoas com outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1.
Anti-TPO positivo com TSH normal: qual o risco de evoluir?
O risco existe, mas a evolução costuma ser lenta:
- TSH normal: no estudo de Whickham, citado na revisão de 2005, o risco anual de hipotireoidismo em mulheres com anti-TPO positivo e TSH normal foi de 2,1%.
- TSH já elevado: o consenso da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) cita, no mesmo estudo, progressão de 4,3% ao ano em mulheres com TSH acima de 6 mU/L e anticorpos positivos, contra 2,6% sem anticorpos.
- Mulheres que planejam engravidar: segundo a ATA (2026), cerca de 7% a 9% das mulheres com anti-TPO positivo e função normal desenvolveram hipotireoidismo, em geral subclínico, em 12 meses de acompanhamento nos estudos randomizados.
A revisão de 2005 também observa que, mesmo dentro da faixa normal de TSH, títulos mais altos do anticorpo acompanham valores mais altos de TSH.
De quanto em quanto tempo devo repetir os exames?
Depende da situação, e o intervalo é definido em consulta. As diretrizes dão alguns parâmetros:
| Situação | Acompanhamento sugerido | Fonte |
|---|---|---|
| Anti-TPO já positivo | Não precisa repetir o anticorpo | LATS (2013) |
| Hipotireoidismo subclínico em observação, com anti-TPO positivo | TSH uma vez por ano | LATS (2013) |
| Mulher com anti-TPO positivo e função normal que planeja engravidar | TSH e T4 livre a cada 3 a 6 meses | ATA (2026) |
| Gestante com anti-TPO positivo | TSH a cada 4 a 6 semanas até a metade da gestação | ATA (2026) |
Em qualquer situação, vale procurar avaliação se surgirem sinais de hipotireoidismo. A LATS cita, entre eles, sensação de frio, intestino preso, pele grossa, rosto e olhos inchados, voz rouca e alteração de memória.
E na gravidez ou para quem quer engravidar?
A gestação aumenta a demanda sobre a tireoide. Segundo a ATA (2026), entre gestantes com anti-TPO positivo, 4% têm hipotireoidismo manifesto e 18% têm hipotireoidismo subclínico, contra 0,4% e 3,2% entre as que não têm o anticorpo. A diretriz também descreve um aumento absoluto de cerca de 2% a 8% no risco de aborto espontâneo e de 2% a 3% no de parto prematuro.
A pergunta que muitas mulheres fazem é se a levotiroxina reduz esse risco. Estudos randomizados recentes mostraram que não, com o remédio iniciado antes ou no começo da gravidez. Com base neles, a ATA recomenda:
- não oferecer levotiroxina a gestantes ou mulheres com infertilidade que tenham anti-TPO positivo e TSH normal;
- não oferecer selênio, corticoides ou imunoglobulina com esse objetivo;
- acompanhar o TSH de perto, para tratar cedo se o hipotireoidismo aparecer.
Aqui as diretrizes divergem. O posicionamento brasileiro da Febrasgo com o Departamento de Tireoide da SBEM, de 2022, indica levotiroxina para gestantes com anti-TPO positivo e TSH entre 2,5 e 4,0 mU/L. A ATA, em 2026, recomenda não tratar nessa situação, com base nos estudos randomizados mais recentes. As duas concordam que a gestante com anti-TPO positivo deve repetir o TSH durante a gravidez. Se você está grávida e já usa o remédio, não suspenda por conta própria: converse com quem acompanha a sua gestação.
Dá para “baixar” o anti-TPO com dieta ou suplemento?
Essa é uma das dúvidas mais comuns, e a resposta passa por entender que o número do anticorpo não é alvo de tratamento. A LATS afirma que dosagens seriadas de anticorpos não são recomendadas para monitorar o tratamento da doença autoimune da tireoide.
O que dizem os estudos sobre o selênio:
- Uma meta-análise de 35 estudos randomizados, publicada na revista Thyroid em 2024, encontrou queda média do anti-TPO com selênio e pequena redução do TSH em quem não usava hormônio. Não houve mudança no T4 livre nem no T3.
- Os autores ressaltam que a relevância clínica de baixar o anti-TPO ainda precisa ser investigada. Dos seis grupos que avaliaram bem-estar, dois relataram melhora e quatro não encontraram diferença.
- Na gravidez, a ATA (2026) afirma que não há dados que sustentem intervenção na dieta ou uso de selênio para melhorar os desfechos da gestação ou o risco de hipotireoidismo.
Quando o hipotireoidismo aparece, a LATS recomenda a levotiroxina como tratamento de escolha. Suplementos não substituem esse tratamento, e qualquer uso deve ser conversado com o médico.
Quando procurar um endocrinologista?
Vale avaliar com especialista quando o anti-TPO vem positivo junto com TSH alterado, quando há sintomas de hipotireoidismo, no planejamento da gravidez, durante a gestação ou em quem tem outras doenças autoimunes. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de tireoide e a consulta.