No hipotireoidismo, a tireoide produz menos hormônio do que o corpo precisa, e o metabolismo fica mais lento. Os sintomas costumam aparecer aos poucos e lembram queixas do dia a dia, como cansaço e desânimo. É por isso que tanta gente convive com o problema sem saber, ou atribui tudo ao hipotireoidismo sem ter a doença.
O quadro é frequente. Segundo o consenso da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) sobre hipotireoidismo subclínico, uma amostra de 1.220 mulheres adultas do Rio de Janeiro mostrou TSH elevado em 12,3% delas, chegando a 19,1% entre as que tinham mais de 70 anos.
Quais são os sintomas mais comuns do hipotireoidismo?
A diretriz latino-americana de hipotireoidismo, publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, e a regional paulista da SBEM (SBEM-SP) listam, entre os mais frequentes:
- cansaço, fraqueza e sonolência excessiva;
- sensação de frio;
- intestino preso;
- pele seca e queda de cabelo;
- falhas de memória e raciocínio mais lento;
- dores musculares;
- inchaço nas pálpebras e no rosto;
- rouquidão ou voz mais grave;
- batimentos cardíacos mais lentos;
- menstruação irregular ou mais intensa;
- colesterol alto;
- ganho discreto de peso.
O humor também pode mudar. Segundo o Departamento de Tireoide da SBEM, metade dos pacientes com hipotireoidismo tem sintomas depressivos, e quem tem depressão deve ter a função da tireoide avaliada.
Por que os sintomas não bastam para o diagnóstico?
Porque esses sinais aparecem em muitas outras situações; a própria diretriz latino-americana cita anemia e depressão entre as condições que causam queixas parecidas. O documento é direto: os achados clínicos do hipotireoidismo são muito inespecíficos, principalmente em idosos, e o exame físico sozinho não confirma nem descarta a doença.
Na forma leve, chamada hipotireoidismo subclínico, a mesma diretriz observa que sinais e sintomas são raros. O consenso da SBEM acrescenta que ela pode dar sintomas em apenas uma pequena parte dos pacientes.
O caminho inverso também engana. A Associação Americana de Tireoide (ATA) recomenda não usar levotiroxina em quem tem sintomas vagos e exames da tireoide normais, porque não há benefício. O Departamento de Tireoide da SBEM alerta que tomar hormônio da tireoide sem diagnóstico pode enfraquecer os ossos e causar arritmias.
Como o exame confirma o hipotireoidismo?
O TSH é um hormônio da hipófise que estimula a tireoide. Quando ela produz pouco, o TSH sobe. Por isso ele é o primeiro exame. A diretriz latino-americana recomenda dosar o TSH e, se estiver alterado, repetir após 2 a 3 meses junto com o T4 livre para confirmar. Quando há suspeita de causa autoimune, entra também o anticorpo anti-TPO.
| Resultado | O que costuma significar |
|---|---|
| TSH dentro da faixa do laboratório (0,4 a 4,5 mU/L no consenso da SBEM) | Função da tireoide normal em adultos |
| TSH acima do limite do laboratório e T4 livre normal | Hipotireoidismo subclínico |
| TSH alto e T4 livre baixo | Hipotireoidismo clínico, também chamado manifesto |
Definições do consenso da SBEM sobre hipotireoidismo subclínico. A faixa de referência depende do método e vem impressa no laudo.
A causa mais frequente, segundo a diretriz latino-americana, é a tireoidite de Hashimoto, uma inflamação autoimune da tireoide. O Departamento de Tireoide da SBEM orienta que o sangue para o TSH seja colhido pela manhã.
Quem tem mais risco de hipotireoidismo?
O consenso da SBEM aponta prevalência maior em mulheres e em idosos. A diretriz latino-americana recomenda investigar principalmente:
- mulheres em idade fértil e mulheres mais velhas, sobretudo acima de 60 anos;
- quem já fez cirurgia na tireoide, tratamento com iodo radioativo ou radioterapia na região;
- quem já teve alteração da tireoide ou tem anti-TPO positivo;
- quem usa amiodarona ou lítio;
- pessoas com diabetes tipo 1, lúpus, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren ou vitiligo;
- pessoas com síndrome de Down ou de Turner;
- quem tem insuficiência cardíaca, colesterol alto, anemia ou prolactina elevada;
- quem tem bócio (aumento da tireoide) ou parentes com doença autoimune da tireoide.
Como o hipotireoidismo aparece nos idosos?
Nos idosos, os sintomas se confundem ainda mais com o envelhecimento, como alerta a diretriz latino-americana. Ao mesmo tempo, o TSH sobe naturalmente com a idade. O consenso da SBEM lembra que essa elevação pode até ter efeito protetor para o coração nessa faixa etária, e a diretriz latino-americana recomenda considerar limites de TSH mais altos para idosos.
Isso muda a decisão de tratar. Acima de 65 anos, o consenso da SBEM recomenda tratar o hipotireoidismo subclínico apenas quando o TSH fica acima de 10 mU/L de forma sustentada, e não recomenda o tratamento só para aliviar sintomas. Quando a reposição é indicada, a diretriz latino-americana sugere começar com doses menores em pessoas acima de 60 anos ou com doença cardíaca.
Hipotireoidismo engorda?
Um pouco, e nem sempre. O Departamento de Tireoide da SBEM explica que muitos pacientes não têm ganho de peso. Quando ele acontece, é pequeno, de cerca de 2 kg, e o tratamento reverte esse efeito. O corpo também passa a reter mais sal e água, o que provoca inchaço.
A SBEM-SP reforça que não é correto culpar o hipotireoidismo pela obesidade. A ATA, por sua vez, recomenda não usar levotiroxina para tratar obesidade em quem tem a tireoide funcionando normalmente, porque o remédio não funciona para isso.
Quando pedir o exame de TSH?
O consenso da SBEM recomenda o TSH em duas situações: quando há suspeita clínica, isto é, sintomas compatíveis, e como rastreamento em grupos de alto risco, como os listados acima. Já o rastreamento da população em geral, para achar a forma subclínica, não é aconselhável segundo a diretriz latino-americana, que destaca a busca ativa em grupos de risco, especialmente gestantes e mulheres que pretendem engravidar.
Se o primeiro TSH vier alterado, não tire conclusões de imediato. As duas diretrizes recomendam repetir o exame antes de fechar o diagnóstico.
Quando procurar um endocrinologista?
Vale procurar avaliação se você tem vários desses sintomas ao mesmo tempo, se está em um grupo de risco, se planeja engravidar ou se recebeu um TSH fora da faixa de referência. O especialista confirma o diagnóstico, investiga a causa e decide se há indicação de tratamento. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina (PI), e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de tireoide e a consulta.