A semaglutida é usada no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Nas farmácias, ela aparece com nomes comerciais diferentes, o que gera dúvida: é o mesmo remédio? Serve para a mesma coisa?
Entender essa diferença ajuda a ver por que a dose, a indicação e o acompanhamento importam, e por que canetas vendidas fora das farmácias regulares representam um risco.
Por que a semaglutida tem mais de um nome comercial?
O princípio ativo é o mesmo. O que muda é o registro: o fabricante registrou na Anvisa produtos diferentes para indicações diferentes. Os dois nomes mais conhecidos correspondem a uma versão para diabetes e outra para obesidade. Segundo a lista de agonistas de GLP-1 divulgada pela Anvisa em 2025, as principais versões são estas:
| Versão | Indicação registrada | Ano do registro |
|---|---|---|
| Semaglutida injetável semanal para diabetes (Ozempic) | Diabetes tipo 2 | 2018 |
| Semaglutida em comprimido | Diabetes tipo 2 | 2020 |
| Semaglutida injetável semanal para obesidade (Wegovy) | Obesidade e sobrepeso | 2023 |
A mesma lista traz ainda outros registros de semaglutida do fabricante, com essas mesmas duas indicações.
A dose também é diferente. Segundo o posicionamento da ABESO e da SBEM de 2024, os estudos de controle da glicose no diabetes (programa SUSTAIN) usaram a semaglutida injetável na dose de 1 mg por semana, enquanto a versão para obesidade foi estudada com 2,4 mg por semana. O aumento da dose é gradual, e a dose de cada pessoa é definida em consulta.
Essa diferença pesa no resultado, porque a perda de peso com a semaglutida depende da dose. No estudo STEP 2, com pessoas com diabetes tipo 2 e excesso de peso, a dose mais alta levou a perda média de 9,6% do peso, contra 7,0% com a dose de 1 mg e 3,4% com placebo, segundo o mesmo posicionamento.
Como a semaglutida age no corpo?
A semaglutida imita o GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), hormônio que o intestino libera depois das refeições. De acordo com o posicionamento ABESO/SBEM, ela reduz a ingestão de calorias porque aumenta a saciedade e diminui a fome. Em estudos com animais, os remédios dessa classe agem no hipotálamo, região do cérebro que regula o apetite, e no sistema de recompensa. O mesmo documento descreve que os agonistas do GLP-1 estimulam a produção de insulina quando a glicose sobe e deixam o esvaziamento do estômago mais lento.
Segundo o mesmo posicionamento, a semaglutida leva cerca de 1 semana para cair pela metade no sangue, por isso a aplicação é semanal, e continua presente no corpo por 5 a 7 semanas após a última dose.
No estudo STEP 1, com adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes, acompanhados por 68 semanas e com orientação de estilo de vida para todos, a perda média foi de 14,9% do peso no grupo que usou o remédio, segundo a diretriz da ABESO de 2026. A diretriz estima uma perda média de 12,5% além do placebo entre 1 e 2 anos. São médias: há quem perca mais e quem perca menos, e pessoas com diabetes tipo 2 costumam perder menos peso, segundo o posicionamento ABESO/SBEM.
A diretriz da ABESO também recomenda a semaglutida para reduzir o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular em pessoas com IMC a partir de 27, sem diabetes e com doença cardiovascular aterosclerótica já estabelecida.
Quais são os efeitos colaterais da semaglutida?
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais. No STEP 1, náusea, diarreia, vômitos ou prisão de ventre ocorreram em 74,2% dos participantes que usaram semaglutida e em 47,9% dos que receberam placebo, segundo o posicionamento ABESO/SBEM. Em geral, foram leves ou moderados e passageiros.
Outros pontos de atenção descritos no mesmo documento:
- problemas na vesícula biliar, sobretudo colelitíase (pedra na vesícula), em 2,6% dos participantes do STEP 1, contra 1,2% no placebo;
- três casos de pancreatite aguda leve, a inflamação do pâncreas, no grupo da semaglutida do STEP 1, todos com recuperação completa;
- risco cerca de 1,6 vez maior de eventos graves, principalmente nas vias biliares e pancreatite, em uma metanálise de estudos com o remédio.
A diretriz da ABESO aponta que a interrupção por efeitos adversos foi 2,2 vezes mais frequente com semaglutida do que com placebo. Dor abdominal forte e persistente, com ou sem vômitos, pode indicar pancreatite ou problema na vesícula e pede atendimento de urgência.
Quais os riscos de usar semaglutida sem prescrição?
Desde 2025, a Anvisa exige a retenção da receita na farmácia para os medicamentos agonistas de GLP-1, o que inclui a semaglutida injetável e em comprimido. O remédio tem contraindicações, como gravidez e alergia aos componentes, e efeitos adversos que pedem acompanhamento.
Sem avaliação médica, também fica de fora o planejamento para depois. Na extensão do estudo STEP 1, com 327 participantes, quem usou semaglutida por 68 semanas perdeu, em média, 17,3% do peso. Um ano após a suspensão, havia recuperado 11,6 pontos percentuais, e a maior parte das melhoras de pressão, glicose e colesterol voltou para perto do início. Manter, ajustar ou suspender o tratamento são decisões individuais, feitas em consulta.
Semaglutida manipulada ou falsificada: o que diz a Anvisa?
Em abril de 2026, a Anvisa anunciou um plano contra o crescimento irregular da manipulação de canetas de GLP-1. Segundo a agência, só no segundo semestre de 2025 foram importados mais de 100 kg de insumos, o suficiente para cerca de 20 milhões de doses. Em 2026, 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras resultaram em 8 interdições. Os riscos citados incluem falhas de esterilização, deficiências no controle de qualidade e uso de insumos sem identificação de origem e composição.
A Anvisa lembra que a patente da semaglutida expirou no Brasil em março de 2026, mas qualquer medicamento só pode ser vendido depois de comprovar eficácia, segurança e qualidade no registro da agência. A diretriz da ABESO também não recomenda fórmulas manipuladas para obesidade, por risco de composição incerta, dose incorreta e substâncias não declaradas.
Há ainda as falsificações. Em outubro de 2024, a Anvisa alertou que rótulos verdadeiros de um lote de semaglutida foram colados em canetas de insulina vendidas como se fossem o remédio. As orientações da agência são:
- comprar apenas em farmácias regularizadas, com nota fiscal;
- aceitar só o produto completo, dentro da caixa;
- desconfiar de ofertas em sites, aplicativos, redes sociais e grupos de mensagens;
- não usar um produto suspeito e comunicar a Anvisa pela Ouvidoria ou pelo sistema VigiMed.
Quando procurar um endocrinologista?
Procure avaliação se você tem diabetes tipo 2, obesidade ou sobrepeso com doenças associadas e quer saber se a semaglutida faz sentido no seu caso, ou se já usa o remédio e tem efeitos colaterais ou dúvidas sobre a manutenção. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de emagrecimento e obesidade e a consulta.