A obesidade é uma doença crônica, com várias causas e tendência a voltar, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Como em outras doenças crônicas, o tratamento pode incluir medicamento. O problema é que muitos produtos prometem emagrecimento sem ter passado pelos testes exigidos para um remédio.
Em 2026, a ABESO publicou a 5ª edição da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade. É nela que este texto se baseia para explicar quais remédios são aprovados, quem tem indicação e o que fica de fora.
Quais remédios para emagrecer são aprovados no Brasil?
Segundo a diretriz, seis opções têm aprovação para tratar obesidade no Brasil e eficácia comprovada em ensaios clínicos randomizados, desde que respeitadas as contraindicações. A tabela resume como cada uma age, com base no posicionamento da ABESO e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) de 2024, e a perda média de peso além do placebo em 1 ano, segundo a Tabela 5 da diretriz:
| Medicamento | Como age | Perda média além do placebo em 1 ano | Pontos de atenção |
|---|---|---|---|
| Orlistate | Reduz em cerca de 30% a absorção da gordura ingerida | 2,1% | Fezes gordurosas, urgência para evacuar e manchas oleosas |
| Sibutramina | Prolonga a saciedade ao agir em neurotransmissores do cérebro | 4,2 kg | Aumenta pressão e frequência cardíaca |
| Naltrexona + bupropiona | Age no controle do apetite e pode reduzir a fissura por comida | 4,8% | Náusea, dor de cabeça e prisão de ventre |
| Liraglutida | Imita o hormônio GLP-1; injeção diária | 6,8% | Náusea, vômitos, diarreia e pedra na vesícula |
| Semaglutida | Imita o hormônio GLP-1; injeção semanal | 12,0% | Efeitos gastrointestinais e problemas na vesícula |
| Tirzepatida | Imita os hormônios GIP e GLP-1; injeção semanal | 14,8% | Efeitos gastrointestinais; colecistite rara |
Os valores vêm de uma metanálise em rede com 56 estudos e cerca de 60 mil participantes. O dado da sibutramina está em quilos porque veio de outra metanálise. São médias: a resposta de cada pessoa pode ser bem diferente.
A diretriz agrupa os remédios pela potência. Semaglutida e tirzepatida são de alta potência, com perda média a partir de 10% além do placebo. Sibutramina, naltrexona com bupropiona e liraglutida ficam na faixa baixa a média, entre 4% e 9,9%. O orlistate tem potência muito baixa, abaixo de 4%. Sempre que possível, a ABESO sugere considerar os de alta potência. Quando isso não é viável, a escolha leva em conta doenças associadas, segurança, tolerância, custo e padrão alimentar.
Algumas contraindicações descritas no posicionamento ABESO/SBEM:
- sibutramina: doença das artérias do coração, AVC, arritmia, insuficiência cardíaca, pressão acima de 145 por 90 mmHg e diabetes tipo 2 com outro fator de risco;
- orlistate: gestação, amamentação, má absorção crônica e colestase (dificuldade de escoamento da bile);
- naltrexona + bupropiona: pressão alta não controlada, epilepsia, bulimia, anorexia e uso de opioides.
Quem tem indicação de remédio para obesidade?
A diretriz da ABESO recomenda o tratamento com remédio, junto com mudanças no estilo de vida, para pessoas com:
- IMC a partir de 30 kg/m²; ou
- IMC a partir de 27 kg/m² com complicações ligadas ao excesso de gordura, como pressão alta, pré-diabetes ou apneia do sono.
O IMC é o peso em quilos dividido pela altura em metros ao quadrado. Uma pessoa de 1,65 m e 82 kg, por exemplo, tem IMC de cerca de 30.
A diretriz admite considerar o tratamento com IMC mais baixo quando a cintura ou a relação cintura/altura está aumentada e já há complicações. A relação cintura/altura é considerada elevada acima de 0,5. Também deixa claro que não é preciso passar antes por uma fase só com dieta para iniciar o remédio.
Os objetivos vão além da balança: melhorar ou fazer entrar em remissão doenças associadas, reduzir o risco cardiovascular e melhorar qualidade de vida e funcionalidade. Para a maioria das pessoas, a diretriz sugere buscar perda de 10% ou mais do peso. Como regra geral, a continuidade do remédio costuma ser reavaliada se a perda não chegar a 5% depois de 12 semanas na dose plena, embora a própria ABESO registre que esse critério vem sendo questionado.
Por que fórmulas manipuladas não são recomendadas?
A diretriz da ABESO classifica as fórmulas magistrais para obesidade como não recomendadas, incluindo as que misturam diuréticos, hormônio da tireoide, anabolizantes, implantes hormonais ou hCG (gonadotrofina coriônica humana). Os motivos apontados:
- falta de estudos clínicos que comprovem eficácia e segurança;
- ausência de controle de qualidade padronizado;
- composição incerta, doses erradas e substâncias não declaradas;
- risco de lesão no fígado e nos rins, alterações psiquiátricas, alergias e interações perigosas entre remédios.
O alerta vale também para as canetas. Em 2026, a Anvisa anunciou medidas contra o crescimento irregular da manipulação de canetas de semaglutida, tirzepatida e liraglutida, citando problemas de esterilização e insumos sem origem identificada.
E os chás, cápsulas e shakes?
Para a Anvisa, qualquer produto vendido com propriedades terapêuticas precisa ser autorizado como medicamento. Suplemento alimentar não pode, em nenhuma hipótese, indicar prevenção, tratamento ou cura de doenças. A agência também alerta que muitos produtos “naturais” irregulares contêm substâncias sintéticas não informadas no rótulo, como inibidores de apetite e anti-inflamatórios.
O posicionamento nutricional da ABESO de 2022 chama chás, cápsulas termogênicas, fitoterápicos e suplementos sem comprovação de propostas ineficazes, com potenciais riscos à saúde, e conclui que não há evidência para indicá-los na perda de peso.
Os shakes que substituem refeições são outro caso. O mesmo documento cita estudos em que eles ajudaram a estruturar dietas de baixa caloria, com maior perda de peso em 1 ano. Mas são alimentos, não remédios: não tratam a obesidade sozinhos e, na forma líquida, costumam dar menos saciedade do que a comida sólida.
Quais os riscos da automedicação?
Tomar remédio para emagrecer por conta própria expõe a riscos que a consulta ajuda a evitar:
- usar um medicamento contraindicado, como sibutramina em quem tem doença cardíaca;
- não reconhecer efeitos adversos que pedem atenção, como sinais de problemas na vesícula;
- comprar produtos falsificados, manipulados de forma irregular ou vendidos sem registro;
- recuperar o peso ao parar sem planejamento, já que o reganho após a suspensão é comum, segundo a diretriz.
A escolha do remédio, da dose e do tempo de uso é individual e feita em consulta.
Quando procurar um endocrinologista?
Converse com um endocrinologista se o seu IMC está a partir de 30, ou a partir de 27 com pressão alta, pré-diabetes, diabetes ou apneia, se você já usou remédios para emagrecer sem orientação ou se quer entender qual opção combina com a sua saúde. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina, e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de emagrecimento e obesidade e a consulta.