O índice de massa corporal (IMC) é a conta mais usada para classificar o peso de adultos. É rápido, não custa nada e aparece em consultas, check-ups e aplicativos de celular. A Organização Mundial da Saúde (OMS) usa o índice para acompanhar a obesidade no mundo: segundo a entidade, em 2022 havia 2,5 bilhões de adultos com excesso de peso, e 890 milhões deles viviam com obesidade.
Só que um número calculado com duas medidas diz pouco sobre o que existe dentro do corpo. Entender o que o IMC mede, e o que ele deixa de fora, ajuda a ler o resultado sem susto e sem falsa tranquilidade.
Como calcular o IMC?
A fórmula é o peso em quilos dividido pela altura em metros elevada ao quadrado (kg/m²). Na prática:
- Multiplique a sua altura por ela mesma.
- Divida o seu peso pelo resultado.
O relatório técnico da OMS sobre obesidade traz um exemplo: uma pessoa com 70 kg e 1,75 m faz 1,75 × 1,75 = 3,06. Depois, 70 ÷ 3,06 = 22,9 kg/m².
Essa conta vale para adultos. Em crianças e adolescentes, o IMC varia com a idade e o sexo, e a avaliação usa curvas específicas por idade, como explicam as Diretrizes Brasileiras de Obesidade da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).
Qual é a tabela de classificação do IMC da OMS?
A classificação abaixo é a da OMS, publicada no relatório técnico de 2000 e adotada pela ABESO para a população brasileira:
| IMC (kg/m²) | Classificação | Risco de outras doenças |
|---|---|---|
| Abaixo de 18,5 | Baixo peso | Baixo, mas com risco maior de outros problemas clínicos |
| 18,5 a 24,9 | Faixa normal | Médio |
| 25 a 29,9 | Sobrepeso (pré-obesidade) | Aumentado |
| 30 a 34,9 | Obesidade grau I | Moderado |
| 35 a 39,9 | Obesidade grau II | Grave |
| 40 ou mais | Obesidade grau III | Muito grave |
A OMS ressalta dois pontos na própria tabela. Os valores são iguais para homens e mulheres. E o risco não muda de uma hora para outra: ele cresce de forma contínua a partir de 25.
Por que o IMC não conta toda a história?
A própria OMS reconhece que o IMC não distingue o peso que vem do músculo do peso que vem da gordura. A ABESO lista as situações em que isso mais pesa na interpretação.
Massa muscular
Quem treina força e tem muita massa magra pode aparecer com sobrepeso sem ter excesso de gordura. A ABESO descreve que o índice tende a superestimar a gordura em pessoas musculosas.
Idade
Segundo a OMS, a porcentagem de gordura corporal aumenta com a idade até por volta dos 60 a 65 anos, em ambos os sexos. Em idosos, a perda de massa muscular e a redução da estatura por curvatura da coluna (cifose) deixam o índice menos preciso. Por isso, o Ministério da Saúde adota para quem tem 60 anos ou mais uma faixa normal diferente, de acima de 22 a abaixo de 27 kg/m², conforme a ABESO.
Sexo
Com o mesmo IMC, mulheres costumam ter mais gordura corporal do que homens, de acordo com o relatório da OMS.
Etnia
Um mesmo IMC não corresponde ao mesmo grau de gordura em populações diferentes, em parte pelas proporções do corpo, diz a OMS. Para pessoas de origem asiática, a ABESO sugere pontos de corte mais baixos: risco aumentado a partir de 23 kg/m² e alto risco acima de 27,5 kg/m².
Onde a gordura está
O IMC não mostra a distribuição da gordura. A gordura visceral, que fica dentro do abdome, em volta dos órgãos, é um fator de risco independente da gordura total, e duas pessoas com o mesmo IMC podem ter quantidades bem diferentes dela, segundo a ABESO. Inchaço (edema) também altera o peso e distorce o cálculo.
Em 2025, uma comissão internacional publicada na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology foi além. O grupo recomendou usar o IMC como marcador de risco em populações e como triagem, e não como medida de saúde de uma pessoa. Para confirmar o excesso de gordura, sugere somar pelo menos uma medida corporal (cintura, relação cintura-quadril ou cintura-altura) ou uma medida direta da gordura. A exceção são valores acima de 40 kg/m², em que o excesso de gordura pode ser presumido.
Como medir a circunferência abdominal?
Segundo a ABESO, a medida da cintura reflete a gordura visceral melhor do que a relação cintura-quadril, e é simples de fazer. A diretriz descreve duas formas aceitas: no ponto médio entre a última costela e o osso do quadril (crista ilíaca) ou no maior perímetro entre esses dois pontos, com a leitura feita ao final da expiração.
Os pontos de corte variam conforme a referência usada:
- Federação Internacional de Diabetes (IDF): 94 cm ou mais em homens e 80 cm ou mais em mulheres para populações de origem europeia. Para pessoas das Américas do Sul e Central, a IDF orienta usar as referências sul-asiáticas: 90 cm ou mais em homens e 80 cm ou mais em mulheres.
- NCEP-ATP III (programa americano de colesterol): acima de 102 cm em homens e de 88 cm em mulheres.
- Relação cintura-estatura: a cintura deve ser menor que a metade da altura, ou seja, uma relação abaixo de 0,5. A ABESO cita análises com mais de 300 mil adultos em que essa relação superou o IMC na detecção de risco cardiometabólico. Para quem tem 1,70 m, por exemplo, isso corresponde a uma cintura abaixo de 85 cm.
O que a composição corporal acrescenta?
A composição corporal separa o peso em gordura, massa magra e água. Existem vários métodos, como a absorciometria por raios X (DEXA), a ultrassonografia e a bioimpedância.
Na bioimpedância, uma corrente elétrica de baixa intensidade atravessa o corpo. Como o músculo, rico em água, conduz bem a corrente e a gordura oferece resistência, o aparelho estima a massa gorda, a massa livre de gordura e a água corporal. A ABESO considera o método prático, mas sensível a comida, bebida, exercício, temperatura e ciclo menstrual. Por isso orienta jejum de pelo menos 4 horas, 12 horas sem atividade física e 24 horas sem álcool antes do exame. Aparelhos octopolares multifrequenciais dependem menos da hidratação e são mais precisos em idosos, segundo a mesma diretriz.
Esse tipo de avaliação ajuda a acompanhar o que muda durante um tratamento, porque a balança não mostra se o peso perdido veio da gordura ou do músculo. Veja como funciona a bioimpedância.
Quando procurar um endocrinologista?
Uma consulta com endocrinologista ajuda se o seu IMC está na faixa de sobrepeso ou obesidade, se a cintura passou dos pontos de corte mesmo com IMC normal ou se o peso vem subindo sem explicação. O especialista junta o IMC, as medidas corporais, os exames e a sua história para entender o risco real e discutir opções, que são sempre individuais e definidas em consulta. Se quiser avaliar o seu caso, veja como funciona o tratamento de emagrecimento e obesidade e a consulta.