Gestrinona e “chip da beleza”: o que dizem as sociedades médicas

Gestrinona é um hormônio sintético derivado da 19-nortestosterona, com ação androgênica, usado em implantes manipulados apelidados de “chip da beleza”. SBEM e Febrasgo não recomendam esses implantes por falta de estudos de segurança e eficácia. O CFM proíbe prescrever hormônios androgênicos com fins estéticos, e a Anvisa proíbe implantes manipulados com anabolizantes ou androgênios para estética, ganho de massa muscular ou desempenho esportivo.

Por equipe editorial do consultório · Publicado em

Nos últimos anos, implantes hormonais colocados sob a pele ficaram conhecidos nas redes sociais como “chip da beleza”, associados a promessas de mais disposição, menos gordura e mais músculos. A gestrinona é um dos hormônios mais usados nessas fórmulas.

Segundo a Anvisa, “chip da beleza” é o apelido de implantes hormonais manipulados, feitos em farmácias de manipulação. Esses produtos não passaram por avaliação da agência, e não existe implante registrado para fins estéticos, cansaço ou sintomas da menopausa. Abaixo, reunimos o que dizem as sociedades médicas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a agência reguladora.

O que é a gestrinona?

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a gestrinona é um hormônio sintético da família dos progestágenos, derivado da 19-nortestosterona. Ela tem ação androgênica (semelhante à dos hormônios masculinos), antiestrogênica e antiprogestagênica, e reduz a liberação de hormônios da hipófise que estimulam os ovários.

O histórico de uso médico é limitado:

Por ter efeito anabolizante, a gestrinona está na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidopagem, lembra a SBEM.

O que são os implantes hormonais manipulados?

São formulações inseridas sob a pele e preparadas em farmácias de manipulação. Segundo a Anvisa, costumam conter esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos, principalmente gestrinona, testosterona e oxandrolona, e vinham sendo manipulados para fins estéticos, cansaço e sintomas da menopausa.

As entidades apontam problemas próprios desse formato:

O que dizem a SBEM e a Febrasgo?

Em posicionamento de 2021, a SBEM afirma que não reconhece os implantes de gestrinona como opção de tratamento para endometriose e rejeita com veemência seu uso como anabolizante para fins estéticos ou de desempenho físico. A entidade também pede que a gestrinona entre na lista de anabolizantes sob controle especial e que a fiscalização aumente. Segundo a SBEM, esses implantes não são reconhecidos pela Endocrine Society, pela Sociedade Norte-Americana de Menopausa nem pela Febrasgo.

As comissões de Anticoncepção e de Climatério da Febrasgo também não recomendam implantes hormonais manipulados sem aprovação da Anvisa, seja para terapia hormonal da menopausa, seja para contracepção. Os motivos citados:

A Febrasgo recomenda usar apenas métodos hormonais aprovados pela Anvisa.

O que diz a Resolução CFM 2.333/2023?

Publicada em abril de 2023, a Resolução CFM 2.333/2023 trata exclusivamente do uso de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular e de desempenho esportivo. A exposição de motivos cita a gestrinona entre os hormônios usados de forma indiscriminada. O texto afirma que a reposição hormonal está indicada quando há deficiência comprovada e relacionada ao quadro clínico. Ficam vedados aos médicos:

O mesmo texto reconhece usos médicos dos androgênios, como hipogonadismo, puberdade atrasada, caquexia, terapia hormonal para pessoas trans e, por curto prazo, desejo sexual hipoativo em mulheres.

O que a Anvisa decidiu sobre os implantes?

Desde dezembro de 2021, a propaganda da gestrinona para o público em geral já era proibida pela agência. Em 18 de outubro de 2024, a Anvisa publicou a Resolução RE 3.915/2024, que suspendeu a manipulação, a venda, a propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados, depois de denúncias de entidades médicas, entre elas a Febrasgo. A agência também emitiu um alerta: não há comprovação de segurança e eficácia desses implantes para fins estéticos e de desempenho.

Em novembro de 2024, a medida foi revista (Resolução RE 4.353/2024). Pelas orientações atuais da agência:

As regras para o implante de etonogestrel, que é registrado como anticoncepcional, não mudaram.

Quais riscos já foram descritos?

Os relatos vêm de fontes e tipos de estudo diferentes:

Fonte Efeitos descritos
Anvisa (2024), complicações com implantes manipulados Colesterol e triglicerídeos altos, pressão alta, AVC, arritmia cardíaca, aumento de pelos, queda de cabelo, acne, alteração da voz, insônia e agitação
SBEM (2021), relatos com gestrinona e outros androgênios em mulheres Acne, pele oleosa, queda de cabelo, aumento de pelos, mudança no timbre da voz e aumento do clitóris
Revisão sistemática (2025), estudos com gestrinona em uso médico Acne e seborreia (42,7%), falta de menstruação (41,4%), queda da libido (26,5%), fogachos (24,2%) e aumento de enzimas do fígado (15,1%)

A revisão de 2025 reuniu 32 ensaios clínicos com 3.745 mulheres, feitos entre 1975 e 2018 com a gestrinona em uso médico. Os autores concluem que as evidências são insuficientes para entender os riscos do uso amplo e sem regulação, com preocupação especial com implantes e produtos manipulados sem controle de qualidade. Nenhum estudo avaliou o uso estético.

Quando procurar um endocrinologista?

Procure um endocrinologista se você usa ou usou implante hormonal e notou acne, queda de cabelo, aumento de pelos, alteração na voz, pressão alta ou mudanças no ciclo menstrual, ou se recebeu indicação de implante e quer entender as alternativas aprovadas. O especialista avalia os sintomas, pede exames conforme o caso e discute tratamentos com respaldo científico. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina (PI), e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de menopausa e reposição hormonal e a consulta.

Perguntas frequentes

O “chip da beleza” é aprovado pela Anvisa?

Não existe produto aprovado com esse nome. Segundo a Anvisa, “chip da beleza” é o apelido de implantes hormonais manipulados. De acordo com a Febrasgo, o único implante hormonal industrializado aprovado no Brasil é o de etonogestrel, usado como anticoncepcional.

Gestrinona emagrece ou define o corpo?

Não há estudos que sustentem esse uso. A SBEM rejeita o uso da gestrinona como anabolizante para fins estéticos, e a Resolução CFM 2.333/2023 proíbe prescrever hormônios androgênicos com essa finalidade.

Quais efeitos colaterais a gestrinona pode causar?

A SBEM descreve acne, pele oleosa, queda de cabelo, aumento de pelos, alteração da voz e aumento do clitóris. A Anvisa cita ainda colesterol e triglicerídeos altos, pressão alta, arritmia cardíaca e AVC entre as complicações observadas com implantes manipulados.

Implante hormonal manipulado pode ser usado na menopausa?

As comissões da Febrasgo não recomendam implantes manipulados sem aprovação da Anvisa para terapia hormonal da menopausa nem para contracepção, por falta de dados de eficácia e segurança. Existem opções hormonais aprovadas, e a escolha é individual, feita em consulta.

Uso o implante e sinto efeitos colaterais. O que faço?

A Anvisa orienta quem usa esses implantes a procurar o médico para avaliar o tratamento. Qualquer paciente que tenha reações pode notificar a agência, e os profissionais de saúde também devem notificar as complicações que acompanham.

Consulta com a Dra. Natália Brito

  • R$ 500, presencial ou por teleconsulta, com retorno incluso. Na consulta presencial, a bioimpedância também está inclusa.
  • Consulta de cerca de 60 minutos, particular.
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  • Instituto Essência — Edifício Prof. Carlos Daniel, Jóquei, Teresina.
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Referências

  1. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Posicionamento da SBEM sobre o uso (e abuso) de implantes de gestrinona no Brasil (2021).
  2. Febrasgo. Posição das Comissões Nacionais Especializadas de Anticoncepção e Climatério da Febrasgo sobre implantes hormonais (2021).
  3. Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM nº 2.333/2023 (2023).
  4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa faz proibição e publica alerta sobre hormônios implantáveis manipulados (2024).
  5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Implantes hormonais (orientações ao cidadão) (2026).
  6. Pharmaceutics, via PubMed Central (NIH). Safety Profile of Gestrinone: A Systematic Review (2025).