Nos últimos anos, implantes hormonais colocados sob a pele ficaram conhecidos nas redes sociais como “chip da beleza”, associados a promessas de mais disposição, menos gordura e mais músculos. A gestrinona é um dos hormônios mais usados nessas fórmulas.
Segundo a Anvisa, “chip da beleza” é o apelido de implantes hormonais manipulados, feitos em farmácias de manipulação. Esses produtos não passaram por avaliação da agência, e não existe implante registrado para fins estéticos, cansaço ou sintomas da menopausa. Abaixo, reunimos o que dizem as sociedades médicas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a agência reguladora.
O que é a gestrinona?
Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a gestrinona é um hormônio sintético da família dos progestágenos, derivado da 19-nortestosterona. Ela tem ação androgênica (semelhante à dos hormônios masculinos), antiestrogênica e antiprogestagênica, e reduz a liberação de hormônios da hipófise que estimulam os ovários.
O histórico de uso médico é limitado:
- a gestrinona começou a ser estudada por via oral para endometriose no fim dos anos 1970;
- a forma oral foi registrada na Anvisa em 1996 para essa finalidade;
- segundo a SBEM, não existem estudos de segurança e eficácia da gestrinona em implantes, nem mesmo para endometriose.
Por ter efeito anabolizante, a gestrinona está na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidopagem, lembra a SBEM.
O que são os implantes hormonais manipulados?
São formulações inseridas sob a pele e preparadas em farmácias de manipulação. Segundo a Anvisa, costumam conter esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos, principalmente gestrinona, testosterona e oxandrolona, e vinham sendo manipulados para fins estéticos, cansaço e sintomas da menopausa.
As entidades apontam problemas próprios desse formato:
- dose incerta: por serem personalizáveis, há risco real de dose excessiva ou insuficiente (SBEM);
- falta de informação: os implantes não têm rótulo nem bula completa com indicações, interações e efeitos adversos (SBEM);
- sem aprovação industrial: segundo a Febrasgo, o único implante hormonal industrializado aprovado pela Anvisa no Brasil é o de etonogestrel, usado como anticoncepcional.
O que dizem a SBEM e a Febrasgo?
Em posicionamento de 2021, a SBEM afirma que não reconhece os implantes de gestrinona como opção de tratamento para endometriose e rejeita com veemência seu uso como anabolizante para fins estéticos ou de desempenho físico. A entidade também pede que a gestrinona entre na lista de anabolizantes sob controle especial e que a fiscalização aumente. Segundo a SBEM, esses implantes não são reconhecidos pela Endocrine Society, pela Sociedade Norte-Americana de Menopausa nem pela Febrasgo.
As comissões de Anticoncepção e de Climatério da Febrasgo também não recomendam implantes hormonais manipulados sem aprovação da Anvisa, seja para terapia hormonal da menopausa, seja para contracepção. Os motivos citados:
- há poucos estudos publicados sobre implantes com estradiol, testosterona, gestrinona ou DHEA, em geral com poucas participantes;
- faltam dados de segurança a longo prazo;
- não existem, em nenhum país, estudos que tenham levado à aprovação da gestrinona como anticoncepcional.
A Febrasgo recomenda usar apenas métodos hormonais aprovados pela Anvisa.
O que diz a Resolução CFM 2.333/2023?
Publicada em abril de 2023, a Resolução CFM 2.333/2023 trata exclusivamente do uso de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular e de desempenho esportivo. A exposição de motivos cita a gestrinona entre os hormônios usados de forma indiscriminada. O texto afirma que a reposição hormonal está indicada quando há deficiência comprovada e relacionada ao quadro clínico. Ficam vedados aos médicos:
- usar testosterona em qualquer formulação sem comprovar a deficiência, salvo situações previstas em resolução específica;
- usar anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética;
- usar essas substâncias para melhorar o desempenho esportivo, em atletas amadores ou profissionais;
- prescrever hormônios divulgados como “bioidênticos” ou em formulação “nano” sem comprovação científica de superioridade para essas finalidades;
- prescrever moduladores seletivos do receptor androgênico (SARMs), cuja venda e divulgação estão suspensas no Brasil;
- promover cursos, eventos e publicidade que estimulem essas práticas.
O mesmo texto reconhece usos médicos dos androgênios, como hipogonadismo, puberdade atrasada, caquexia, terapia hormonal para pessoas trans e, por curto prazo, desejo sexual hipoativo em mulheres.
O que a Anvisa decidiu sobre os implantes?
Desde dezembro de 2021, a propaganda da gestrinona para o público em geral já era proibida pela agência. Em 18 de outubro de 2024, a Anvisa publicou a Resolução RE 3.915/2024, que suspendeu a manipulação, a venda, a propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados, depois de denúncias de entidades médicas, entre elas a Febrasgo. A agência também emitiu um alerta: não há comprovação de segurança e eficácia desses implantes para fins estéticos e de desempenho.
Em novembro de 2024, a medida foi revista (Resolução RE 4.353/2024). Pelas orientações atuais da agência:
- é proibido comercializar e usar implantes manipulados com esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para fins estéticos, ganho de massa muscular ou desempenho esportivo;
- é proibida a propaganda de qualquer implante hormonal manipulado para o público;
- nos demais casos, o implante manipulado só deve ser usado quando o médico avalia que nenhum medicamento registrado atende à necessidade do paciente, com receita de controle especial que informe o código CID da doença tratada e um termo de responsabilidade assinado por médico, paciente e farmácia;
- complicações durante o uso devem ser notificadas;
- as farmácias só podem manipular substâncias já avaliadas pela Anvisa.
As regras para o implante de etonogestrel, que é registrado como anticoncepcional, não mudaram.
Quais riscos já foram descritos?
Os relatos vêm de fontes e tipos de estudo diferentes:
| Fonte | Efeitos descritos |
|---|---|
| Anvisa (2024), complicações com implantes manipulados | Colesterol e triglicerídeos altos, pressão alta, AVC, arritmia cardíaca, aumento de pelos, queda de cabelo, acne, alteração da voz, insônia e agitação |
| SBEM (2021), relatos com gestrinona e outros androgênios em mulheres | Acne, pele oleosa, queda de cabelo, aumento de pelos, mudança no timbre da voz e aumento do clitóris |
| Revisão sistemática (2025), estudos com gestrinona em uso médico | Acne e seborreia (42,7%), falta de menstruação (41,4%), queda da libido (26,5%), fogachos (24,2%) e aumento de enzimas do fígado (15,1%) |
A revisão de 2025 reuniu 32 ensaios clínicos com 3.745 mulheres, feitos entre 1975 e 2018 com a gestrinona em uso médico. Os autores concluem que as evidências são insuficientes para entender os riscos do uso amplo e sem regulação, com preocupação especial com implantes e produtos manipulados sem controle de qualidade. Nenhum estudo avaliou o uso estético.
Quando procurar um endocrinologista?
Procure um endocrinologista se você usa ou usou implante hormonal e notou acne, queda de cabelo, aumento de pelos, alteração na voz, pressão alta ou mudanças no ciclo menstrual, ou se recebeu indicação de implante e quer entender as alternativas aprovadas. O especialista avalia os sintomas, pede exames conforme o caso e discute tratamentos com respaldo científico. A Dra. Natália Brito, endocrinologista e metabologista (CRM-PI 7855, RQE 5674), atende no Instituto Essência, em Teresina (PI), e por teleconsulta. Se você quiser avaliar seu caso, veja como funciona o tratamento de menopausa e reposição hormonal e a consulta.